terça-feira, 27 de outubro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

ANTÓNIO RAMOS ROSA





Viste o cavalo varado a uma varanda?


Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.


António Ramos Rosa


     António Ramos Rosa nasceu em Faro, em 17 de outubro de 1924 e faleceu 
em Lisboa, em 23 de setembro de 2013.
     É considerado um dos maiores representantes da poesia contemporânea 
portuguesa.
     Publicou a revista Cadernos do Meio-Dia e foi um dos fundadores da revista 
de poesia Árvore. 
     Autor de uma extensa obra poética, recebeu inúmeros prémios literários
de que destaco o Prémio Pessoa, em 1988.
     A Universidade do Algarve atribuiu-lhe, em 2003, o grau de Doutor Honoris Causa.


sábado, 17 de outubro de 2020

 



Olhos Negros


Sei duns belos olhos pretos,

Com que nos meus te demoras,

A piscar sempre indiscretos,

Águas de expressão de amoras.


Nesses olhos há o brilho

Em que se reflete o sol,

Luz em que me maravilho,

Da alma, fundo crisol.


Nessa expressão sem queixume,

Com alegria eu vejo

Todo o inflamado lume

Com que se acende o desejo.


Sempre que à noite escurece,

Teu olhar é luz que guia

O sentir do amor que aquece,

Nessa luz que me alumia.


               Juvenal Nunes





sexta-feira, 9 de outubro de 2020

 POEMAS POR TEMAS


Saudades


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

                              Florbela Espanca


Tema: A Saudade

                Florbela Espanca é uma poeta portuguesa consagrada pela superior
          qualidade dos seus sonetos.
               O seu talento espraiou-se também, na prosa, como contista.

sábado, 3 de outubro de 2020

 POESIA PALACIANA




     A poesia palaciana representa a segunda fase da poesia portuguesa, na história da nossa
 literatura.
     A designação de palaciana deve-se ao facto de ser declamada pelos nobres, nos serões 
palacianos.
     O seu início encontra-se associado ao declínio da ação dos jograis e à nomeação de
 Fernão Lopes, em 1418, para chefe dos arquivos do Estado.
     A poesia palaciana refletia a visão do mundo dos nobres. A mulher não era tão idealizada
 como no trovadorismo e o amor é apresentado de uma forma mais sensual.
     Esta poesia também sofreu alterações no seu aspeto formal. A sua escrita obedecia a métrica,
 feita em redondilhas maiores e menores. Tinha mais ritmo e expressividade, muitas vezes
 a partir de um mote, que se desenvolvia em glosa.
     Um dos seus principais cultores foi João Roiz de Castelo Branco, que dedicou este poema a
 uma dama da corte. 


Cantiga sua Partindo-se

Senhora, partem tão tristes
 meus olhos por vós, meu bem,
 que nunca tão tristes vistes
 outros nenhuns por ninguém.
 
 Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
 tão cansados, tão chorosos,
 da morte mais desejosos
 cem mil vezes que da vida.
 Partem tão tristes os tristes,
 tão fora d’esperar bem,
 que nunca tão tristes vistes
 outros nenhuns por ninguém.

     João Roiz de Castelo Branco


     João Roiz de Castelo Branco foi fidalgo da Casa Real, militar no Norte de África e poeta.
     Integrou as cortes de D. Manuel I e D. João III.
     O poema aqui publicado faz parte integrante do disco Fado Português, cantado pela fadista Amália Rodrigues.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

JOSÉ RÉGIO




          SONETO DE AMOR

 

Não me peças palavras, nem baladas, 
Nem expressões, nem alma… Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
 
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossa línguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
 
E em duas bocas uma língua…, - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
 
Depois… - abre os olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

 

                              José Régio



     José Régio nasceu em Vila do Conde, em 17 de setembro de 1901 e faleceu na mesma localidade, em 22 de dezembro de 1969. Foi um escritor português multifacetado, desenvolvendo a sua obra pela poesia e em diferentes domínios da prosa.
     Dirigiu a revista literária Presença, foi colecionador de arte sacra, desenhador e pintor. É um dos criadores da moderna literatura portuguesa.


sexta-feira, 18 de setembro de 2020



Outonal

Está o céu mais cinzento,
São já mais curtos os dias,
O vento, no seu lamento,
Faz tremer as ramarias.

As folhas, no seu bailado,
São pinceladas de cor,
Dando ao ar enevoado
Um efémero fulgor.

A árvore adormece,
Em seu pávido torpor,
E dormente permanece,
Do tempo sente o rigor.

                    Juvenal Nunes




sábado, 12 de setembro de 2020

HOMENAGEM A LEONOR DE ALMEIDA






     A Feira do Livro do Porto 2020 (28/08 a 13/09) homenageia, anualmente, um vulto das letras. Este ano, essa honra coube à poetisa Leonor de Almeida, que, espreitando embora do passado, se vê assim resgatada do esquecimento a que tinha estado votada.
     Desde 29/08/20 que o seu nome passou a figurar, numa lápide, na Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal, junto ao pé da tília que lhe foi atribuída. 
     Da sua frase: «Árvore! Porque não deitas mais diamantes sobre mim?!...», podemos dizer, agora, que a árvore a coroou com os louros, que lhe eram devidos.







POSSE

Vem cá! Assim, verticalmente!
Achega-te… Docemente…
Vou olhar-te… E, no teu olhar, colher
Promessas do que quero prometer,
Até à síncope do amor na alma!
Colemos as mãos, palma a palma!
A minha boca na tua  sem beijo…
Desejo-te, até o desejo
Se queixar que dói…
E sou tua, assim, como nenhuma foi!

                       Leonor de Almeida


     Leonor de Almeida  nasceu  no Porto, no primeiro quartel do séc XX e faleceu em Lisboa, em 1983.
     Escreveu quatro livros de poesia: Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953) e Terceira Asa (1960). 
     É considerada uma das melhores poetas portuguesas da poesia moderna. A sua temática enquadra-se numa visão pan-erótica do Universo.