terça-feira, 13 de abril de 2021

 POEMAS POR TEMAS


Vida

Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.

          Agostinho da Silva


           Tema: Vida






         Para além de poeta Agostinho da Silva foi também filósofo, pedagogo, filólogo,
 ensaísta e tradutor.
         Licenciou-se em Filologia Clássica, no Porto, tendo concluído a sua formação em Paris,
 na Sorbonne.
        Trabalhou longos anos no Brasil, tendo regressado a Portugal, após a morte de Salazar.
        Foi agraciado com o grau da Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant`Iago da Espada.

terça-feira, 6 de abril de 2021

 POESIA PALACIANA



Pergunta de Fernão da Silveira a Álvaro Barreto

Quem bem sabe, em tudo sabe,
e porem d'aquy concrudo,
que a vos, que sabes tudo,
a solver as questões cabe.
E porem muy de verdade
peço que esta rrespondaes,
pera ver, se conçertaes
com mynha negra vontade.

Ca eu ja me vy partyr
e tambem despoys cheguar.
e senty todo o sentyr
do prazer e do pesar.
Mas com tudo he de saber,
quall he vossa concrusam:
se partir da mays paxam,
ou chegar mayor prazer.

        Fernão da Silveira




        Fernão da Silveira, aqui representado pelo seu brasão de armas, é um dos mais 
afamados poetas palacianos do séc. XV.

terça-feira, 30 de março de 2021

 POETAS DE PARABÉNS

EUGÉNIO DE CASTRO




                                                                                                   
 


Três Rosas

Sempre, mas sobretudo nas brumosas
Horas da tarde, quando acaba o dia,
Quando se estrela o céu, tenho a mania
De descobrir, de ver almas nas cousas.

Pendem deste gomil três lindas rosas;
Uma é rosada, a outra branca e fria,
Rubra a terceira; e a minha fantasia
Torna-as humanas, vivas, amorosas.

Sei que são rosas, rosas só! mas nada
Impede, enquanto cai lá fora a chuva,
Que a minha mente a fantasiar se ponha:

Por ser noiva a primeira, é que é rosada;
Branca a segunda está, por ser viúva;
A vermelha pecou ... e tem vergonha!


                  Eugénio de Castro



  

        Natural de Coimbra, onde nasceu em 4 de março de 1869, faleceu na mesma cidade em 17 de agosto de 1944.
        O seu livro de poemas Oaristos credibilizou-o como grande poeta e representante do Simbolismo  em Portugal. Já no século XX enveredou por uma faceta neoclássica.
        Ao longo de toda a sua vida colaborou em inúmeras publicações periódicas.
        Foi agraciado com o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant`Iago da Espada.


sábado, 20 de março de 2021




Andorinha

Chego com a primavera,
Encho o ar com os meus gorjeios,
Percorro todo o espaço,
Em liberdade esvoaço,
Faço mais de mil volteios.
Sou o sonho e a quimera
De um tem tempo remoçado,
Que em cada ano de espera
Cada ano é renovado.

        Juvenal Nunes







        Às 9 horas e 37 minutos de hoje, chegou a Primavera.

sábado, 13 de março de 2021

POESIA PALACIANA



Cantiga de Nuno Pereira quando casou com D. Isabel


Somos ũa cousa nós,

em ambos ũa soo fim,

eu nam sam em mim sem vós,

nem vós nam estais sem mim.

 

Em ambos ũa soo vida

a como cahir em soorte,

que nam pode ser partida

antre nós vida nem morte.

Todo o ser que for de nós

de qualquer cousa em fim,

eu nam sam em mi sem vós,

nem vós nunca soo sem mim.


            Nuno Pereira






        Nuno Pereira foi um poeta palaciano português, que nasceu por volta de 1455.
        Quando jovem, foi íntimo do futuro rei D. João II, com quem conviveu na corte.
        A sua obra encontra-se incluída no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.



sábado, 6 de março de 2021

 CORRENTES d`ESCRITAS 2021



        Com o nome em epígrafe realizou-se, nos dias 26 e 27 de fevereiro passado, um festival
 literário na Póvoa de Varzim, pelo 22º ano consecutivo. Devido às condições impostas pela
 pandemia o evento decorreu online.
        O festival deste ano homenageou o escritor chileno Luís Sepúlveda, pelo legado da sua
 oba. O autor, que estivera presente no festival do ano transato, viria a falecer algum tempo 
depois vítima do Covid-19.
        Este ano, o Prémio Literário Casino da Póvoa, foi atribuído à poetisa portuguesa Maria
 Teresa Horta, pela obra Estranhezas.



Os Silêncios da Fala

São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor

Silêncios de sílex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor
De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio
Os gemidos
nas camas
As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

Maria Teresa Horta






        Maria Teresa Horta é natural de Lisboa, onde nasceu em 29 de maio de 1937.
É uma consagrada poetisa portuguesa, largamente homenageada e premiada.
Nos seus antepassados conta-se a também célebre poetisa Marquesa de Alorna (sécs.
17 e 18).
        Para além da sua obra literária, a sua vida destacou-se, também, como membro
ativo de um projeto feminista, enquanto chefe de redação da revista Mulheres.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

 POETAS DE PARABÉNS

RUY BELO





E tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo





        Ruy Belo é um consagrado poeta português, natural de Rio Maior,
onde nasceu, em 27 de fevereiro de 1933, tendo falecido, em Queluz,
em 8 de agosto de 1978.
        Esteve incompatibilizado quer com o regime de ditadura quer com o
regime democrático.
        Foi diretor literário da Editorial Aster e chefe de redação da revista
Rumo.
        Considerado um dos maiores poetas portugueses da segunda
metade do séc. XX, foi condecorado, a título póstumo, com o grau
de Grande-Oficial da Ordem de Sant´iago da Espada.