terça-feira, 19 de outubro de 2021

 OUTONO E COR




Outono e Cor


O outono é bom pintor,

Tem uma alma de artista,

À folhagem muda a cor,

Nenhuma há que resista.


O outono é sedutor,

À flora mexe os sentidos,

Apesar do seu frescor

Os ramos deixa despidos.


Ao dar cor a cada folha

De cada uma faz tela,

Cada folha que desfolha

É uma bela aguarela.


As folhas assim pintadas

Trazem mensagens sentidas,

Que pelo vento levadas

No espaço deixam sinais,

Transmitindo coloridas

As impressões outonais.

Juvenal Nunes




terça-feira, 12 de outubro de 2021

 POESIA PALACIANA




Ante Tamanhas Mudanças

Antre tamanhas mudanças,
que cousa terei segura?
Duvidosas esperanças,
tão certa desaventura…

Venham estes desenganos
do meu longo engano, e vão,
que já o tempo e os anos
outros cuidados me dão.
Já não sou para mudanças,
mais quero üa dor segura;
vá crê-las vãs esperanças
quem não sabe o qu’aventura!

Bernardim Ribeiro



         Não se sabe ao certo a data de nascimento e morte de Bernardim Ribeiro,
apenas que viveu no séc. XV e XVI, frequentou a corte e consta do Cancioneiro
Geral.
        Viveu algum tempo em Itália. Além de poeta,  foi como novelista que escreveu 
a obra Menina e Moça.
       É um dos mais renomados autores deste período da história da Literatura 
Portuguesa.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

 POEMAS POR TEMAS





Tema: Surreal


H

Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.

                                                     António Maria Lisboa






        Nasceu e morreu em Lisboa. Teve uma existência curta, já 
que viveu apenas 25 anos.
        Colaborou na revista Pirâmide.
        Integrou a corrente surrealista, tendo sido o seu mais radical
representante.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

 POETAS DE PARABÉNS

CAMILO PESSANHA




VIOLONCELO
         
Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
—: Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
— Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha








        Camilo Pessanha nasceu em Coimbra em 7 de setembro de 1867
e faleceu em Macau a 1 de março de 1926, onde jaz sepultado.
        É o mais destacado representante do simbolismo em língua portuguesa.
Colaborou em diversas revistas da época e é autor do livro Clepsidra,
que o colocou, de imediato, no patamar cimeiro das letras pátrias.
        Ainda em vida, foi galardoado com o grau de Comendador da Ordem
Militar de Sant`Iago de Espada.
        A sua morte deveu-se ao uso abusivo de ópio.

sábado, 18 de setembro de 2021

 VINDIMA



Vindima

O Portugal vinhateiro,
Terra de vinho e suor,
Trabalha o ano inteiro,
Em que a alma com ardor
Se extenua pelos poros
Pela labuta nas vinhas,
Animadas pelos coros
Das mais alegres modinhas,
Em que o abraço final,
Entre homem e a natureza,
É o néctar ideal
Produzido com sageza.

Vinha, verão, ardentia
Que no ar põe labaredas,
Os teus socalcos, veredas,
São motivo de ufania.

O trabalho com proveito,
De quem conhece os segredos,
Resulta sempre bem feito
Na produção dos vinhedos.

Sendo os cachos vindimados
São pisados nos lagares
Em gestos bem compassados;
Em breves trocas de olhares
Também a festa domina,
Mesmo os corpos fatigados
Dançam muito animados
Ao ritmo da concertina
Que o homem tem por estima
De manter a tradição,
De ser sempre animação
Todo o tempo de vindima.

Juvenal Nunes






sábado, 11 de setembro de 2021

 POESIA PALACIANA




Comigo me desavim


Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

 

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

 

            Sá de Miranda



       Sá de Miranda é outro consagrado poeta do Cancioneiro Geral.
        No séc. XVI, é o poeta mais lido depois de Camões.
        Homem muito viajado e culto, a ele se deve a introdução do soneto, 
em Portugal.

sábado, 4 de setembro de 2021

 PRÉMIO NACIONAL DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA



        Manuel Alegre venceu, por unanimidade, o prémio supracitado, que lhe será entregue, hoje, no Auditório da Biblioteca Municipal de Faro António Ramos Rosa.
        O prémio distinguiu o seu livro "Quando" publicado em novembro de 2020.





Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como 
dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

 Manuel Alegre






           Natural de Águeda, onde nasceu em 12 de maio de 1936, Manuel Alegre é um político e um poeta português.
      Este prémio é mais um dos muitos que recebeu ao longo da sua atividade, enquanto poeta.
           Opositor ao regime anterior ao atual, esteve exilado, tendo regressado a Portugal após o 25 de abril de 1974. 
É considerado uma das vozes mais fortes da atual poesia portuguesa.