quinta-feira, 28 de maio de 2020

POETAS DE PARABÉNS

MANUEL ALEGRE




As Mãos
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:


nas tuas mãos começa a liberdade.





      Manuel Alegre é um poeta português vivo, nascido em Águeda, em 12 de maio de 1936.

     Republicano convicto é também um político com um passado revolucionário. Esteve  exilado durante 10 anos, tendo regressado a Portugal, após o 25 de abril.
     Autor largamente reconhecido recebeu, entre outros, em 1999, o Prémio Pessoa, pelo conjunto da sua obra e, em 2017, o Prémio Camões, o maior prémio literário de língua portuguesa.         



segunda-feira, 18 de maio de 2020


A Máscara

Tanta beleza escondida,
Na máscara protetora,
Mas toda a mulher sabida
Sabe ser mais sedutora.

Fica velado o sorriso,
Que torna a face mais viva,
Contudo, se for preciso,
Uma palavra motiva.                                              

Para vencer os escolhos
E manter acesa a chama
O movimento dos olhos
São os sinais de quem ama.

No amor há fantasia,
Até quem use brinquedos,
Mascarar será magia
Para desvelar segredos.

Juvenal Nunes





quarta-feira, 13 de maio de 2020

POETAS MEDIEVAIS

JOÃO AIRAS DE SANTIAGO




Não vi mulher, desde que nasci,
ser tão guardada como é
minha amada, de Deus na fé,
mas, porque bem guardada a vi,
por quantos dias no mundo são,
para ela vai meu coração.

A sua mãe uma coisa sei que tem:
que a manda bem guardar
de mim e de quem lá possa entrar;
mas, embora a guarde muito bem,
por quantos dias no mundo são,
para ela vai meu coração.

Dos que a guardam sei já
que  nenhum homem pode lá ir,
mas dir-vos-ei, para não mentir,
já que tão guardada está,
por quantos dias no mundo são,
para ela vai meu coração.

E custa-me bastante, porque não
posso ir onde vai meu coração.


     João Airas de Santiago é de nacionalidade galega e viveu no séc. XIII. Foi um dos
mais importantes trovadores do seu tempo.
     Frequentou as cortes de Afonso X e de Sancho IV em Leão e Castela e a de 
D. Dinis, em Portugal. 
.
     

terça-feira, 5 de maio de 2020

INSTRUMENTOS MUSICAIS

A CHARAMELA

     A charamela é um instrumento musical que se julga ter origem na Eurásia.
     A sua evolução deu lugar ao oboé.
     Trata-se de um aerofone, isto é, de um instrumento cujo som é produzido pela vibração do ar.
     A sua construção é feita em madeira e tanto aparecia nos saraus medievais como nos desfiles co-
memorativos.

Demonstração do som da charamela



quarta-feira, 29 de abril de 2020

POETAS DE PARABÉNS

NUNO JÚDICE




Um Poema de Amor

Não sei onde estás, se falas
ou se apenas olhas o horizonte,
que pode ser apenas o de uma
parede de quarto. Mas sei que
uma sombra se demora contigo,
quando me pergunto onde estás:
uma inquietação que atravessa
o espaço entre mim e ti, e
te rouba as certezas de hoje,
como a mim me dá este poema.


Nuno Júdice é o nome de um poeta ainda vivo, nascido na Mexilhoeira Grande, vila portuguesa do concelho 
de Portimão, em 29 de abril de 1949.
Além de ficcionosta e ensaísta trabalhou também como professor universitário.
È autor de uma dissertação sobre Literatuar Medieval com que obteve o grau de doutor na Faculdade de Ciên-
cias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

segunda-feira, 20 de abril de 2020



Hino à Primavera

O inverno foi-se embora,
O tom cinzento se perde,
Eis que chega a primavera;
Na aleluia da aurora
Vislumbra-se um manto verde
Que nova vida reitera
E a partir dessa hora
Brilha mais intenso o sol
No mais fulgente arrebol.

Na primavera há mil cores
Que enfeitam os caminhos,
É a beleza das flores,
O som das canções dos ninhos.

Canta alegre a cotovia
A sobrevoar as matas,
O seu canto é melodia
Na frescura das cascatas.

Toda a vida regurgita
Nos campos e matagais,
A andorinha pissita
Na proteção dos beirais.

A primavera é um hino
De movimento e cor
Que a força da vida encerra
No que há de mais divino,
Ao espalhar pela terra
Um redolente esplendor.

                  Juvenal Nunes




terça-feira, 14 de abril de 2020

POETAS MEDIEVAIS

JUIÃO BOLSEIRO





Sem o meu amigo sinto-me sozinha
e não adormecem estes olhos meus.
Tanto quanto posso peço a luz a Deus
 e Deus não permite que a luz seja minha.
 Mas se eu ficasse com o meu amigo
 a luz agora estaria comigo.

Quando eu a seu lado folgava e dormia
depressa passavam as noites; agora
vai e vem a noite, a manhã demora;
demora-se a luz e não nasce o dia.
 Mas se eu ficasse com o meu amigo
 a luz agora estaria comigo.

Diferente é a noite quando me aparece
meu lume e senhor e o dia me traz;
pois apenas chega logo a luz se faz.
Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Padres nossos já rezei mais de um cento
implorando Àquele que morreu na cruz
que cedo me mostre novamente a luz
em vez destas longas noites de Advento.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.


      Juião Bolseiro foi um jogral medieval de nacionalidade galega.
 Pensa-se que a sua atividade terá decorrido no terceiro quartel
 do séc. XIII. Foi assíduo da corte de Afonso X, o Sábio.
    Segundo um documento datado de 1240, pode afirmar-se que foi 
 membro da Sé de Santiago de Compostela.