segunda-feira, 23 de março de 2026

 POEMAS POR TEMAS

BELEZA




Tema: Beleza


Menina

Menina de olhar sereno
Raiando pela manhã
De seio duro e pequeno
Num coletinho de lã
Menina cheirando a feno
Casado com hortelã.

Menina que no caminho
Vais pisando formosura
Levas nos olhos um ninho
Todo em penas de ternura.
Menina de andar de linho
Com um ribeiro à cintura.

Menina de saia aos folhos
quem te vê fica lavado
água da sede dos olhos
pão que não foi amassado.

Menina de riso aos molhos
minha seiva de pinheiro
menina de saia aos folhos
alfazema sem canteiro.

Menina de corpo inteiro
com tranças de madrugada
que se levanta primeiro
do que a terra alvoroçada.

Menina de fato novo
ave-maria da terra
rosa brava rosa povo
brisa do alto da serra.

José Carlos Ary dos Santos







        José Carlos Ary dos Santos, de seu nome completo, nasceu em Lisboa em 7 de dezembro 
de 1936, tendo falecido na mesma cidade, em 18 de janeiro de 1984.
        Consagrou-se como declamador e, nas letras portuguesas, como poeta.
        Como letrista de canções colaborou com grandes cantores portugueses, com especial realce 
para Fernando Tordo.
        Foi nessa qualidade que venceu 4 festivais da canção portuguesa, que apuraram Portugal 
para o Festival da Eurovisão.

segunda-feira, 16 de março de 2026

 O MODERNISMO

ALMADA NEGREIROS






O Eco

Tão tarde. Adão não vem ? Aonde iria Adão?
Talvez que fosse à caça; quer fazer surpresas com alguma corça branca lá da
floresta.
Era pelo entardecer, e Eva sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher também, também chamou
Adão.
Teve medo: Mas julgando fantasia chamou de novo: Adão? E uma voz de mulher
também, também chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as setas todas, e a caça era nenhuma!
E ele a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ela fugiu-lhe.

__ Outra que não ela chamara também por ele.

Almada Negreiros





        Artista de vibrante fulgor, Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe,
em 7 de abril de 1893 e faleceu em Lisboa, em 15 de junho de 1970. Cedo se
revelou precoce, pelo que foi um autodidata.
        O seu génio multifacetado espraiou-se pelas artes plásticas, pontificando
no desenho e na pintura e pela escrita, sobressaindo no romance,
poesia, dramaturgia e ensaio.
        Colaborou ativamente nas revistas Presença e Orpheu.
        É um dos principais representantes do modernismo português.

sexta-feira, 6 de março de 2026

 

AS CORES DO MEU REAL (JUEVES)




Paleta de Cores


Vasta paleta de cores
Não há noutra estação
A não ser na primavera,
Num tempo em que as flores,
Em completa redenção,
Não têm tempo de espera
Para pintarem a tela
Da paisagem a mais bela.

Cada qual no seu matiz
Dão ao mundo um ar feliz,
Não permitindo a quem olha
Decidir qualquer escolha.

Juvenal Nunes






                Aqui publico a minha participação ao desafio proposto pela amiga Rosélia.

segunda-feira, 2 de março de 2026

 POETAS DE PARABÉNS

CARLOS FARIA





Mapa-mundo

Aprendo, nas ilhas pequenas, que o mundo é exatamente do seu tamanho:
Sem filosofia nem cálculos matemáticos.
Golegã ou Nova Iorque?
São Jorge ou Madrid?
Espaço onde caiba um homem, e a sua geografia será história…
A ilha é pequena?
A ilha é pequena, sim? E depois?
O espaço que falta a uma ilha, seria se houvesse mais espaço, o espaço que sobejaria!

Carlos Faria





        Carlos Faria, de seu nome completo Carlos Patrício Barata Faria, nasceu na Golegã,
em 2 de março de 1929 e faleceu en Cascais em 16 de janeiro de 2010.
        Notabilizou-se como poeta tornando-se um apaixonado pelos Açores, em especial pela 
ilha de S. Jorge. Foi nos Açores que fundou, nos jornais locais, algumas páginas literárias que alcançaram gtande notoriedade.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 POEMAS POR TEMAS

ESPERANÇA




Tema: Esperança


Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen








        Sophia de Mello Breyner Andresen é uma poetisa natural do Porto, onde nasceu
em 5 de novembro de 1919. Faleceu em Lisboa em 2 de julho de 2004.
        Foi tradutora e o seu talento manifestou-se também na prosa, tendo escrito livros
de contos infantis.
        Foi a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o Prémio Camões.
        Encontra-se sepultada no Panteão Nacional.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 Dulcilóquo





Dulcilóquo


Há no teu peito colinas
A rescender madrugadas
No aroma das boninas
Das manhãs mais orvalhadas.

Envolve-me nos teus braços
Para sentir a doçura
Com que aplacas meus cansaços
Nesse gesto de ternura.

A despetalar saudades,
Em completa sintonia,
Congregamos as vontades
Na mais perfeita harmonia.

Sempre que o amor nos seduz
Que nenhum de nós o tema,
Nele encontramos a luz
Nessa alegria suprema.

Juvenal Nunes



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

 O MODERNISMO

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO





Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro







        Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1890 e faleceu em Paris, em 
26 de abtil de 1916. Atingiu a notoriedade nas letras como ficcionista, contista e 
principalmente poeta. Nesta qualidade, tornou-se um dos grandes expoentes do 
modernismo em Portugal.
        Amigo pessoal de Fernando Pessoa dele se tornou, també, confidente. Viveu uma vida 
atribulado e, não tendo suportado a angústia existencial em que mergulhou, acabou por se suicidar.