segunda-feira, 28 de setembro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

JOSÉ RÉGIO




          SONETO DE AMOR

 

Não me peças palavras, nem baladas, 
Nem expressões, nem alma… Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
 
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossa línguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
 
E em duas bocas uma língua…, - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
 
Depois… - abre os olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

 

                              José Régio



     José Régio nasceu em Vila do Conde, em 17 de setembro de 1901 e faleceu na mesma localidade, em 22 de dezembro de 1969. Foi um escritor português multifacetado, desenvolvendo a sua obra pela poesia e em diferentes domínios da prosa.
     Dirigiu a revista literária Presença, foi colecionador de arte sacra, desenhador e pintor. É um dos criadores da moderna literatura portuguesa.


sexta-feira, 18 de setembro de 2020



Outonal

Está o céu mais cinzento,
São já mais curtos os dias,
O vento, no seu lamento,
Faz tremer as ramarias.

As folhas, no seu bailado,
São pinceladas de cor,
Dando ao ar enevoado
Um efémero fulgor.

A árvore adormece,
Em seu pávido torpor,
E dormente permanece,
Do tempo sente o rigor.

                    Juvenal Nunes




sábado, 12 de setembro de 2020

HOMENAGEM A LEONOR DE ALMEIDA






     A Feira do Livro do Porto 2020 (28/08 a 13/09) homenageia, anualmente, um vulto das letras. Este ano, essa honra coube à poetisa Leonor de Almeida, que, espreitando embora do passado, se vê assim resgatada do esquecimento a que tinha estado votada.
     Desde 29/08/20 que o seu nome passou a figurar, numa lápide, na Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal, junto ao pé da tília que lhe foi atribuída. 
     Da sua frase: «Árvore! Porque não deitas mais diamantes sobre mim?!...», podemos dizer, agora, que a árvore a coroou com os louros, que lhe eram devidos.







POSSE

Vem cá! Assim, verticalmente!
Achega-te… Docemente…
Vou olhar-te… E, no teu olhar, colher
Promessas do que quero prometer,
Até à síncope do amor na alma!
Colemos as mãos, palma a palma!
A minha boca na tua  sem beijo…
Desejo-te, até o desejo
Se queixar que dói…
E sou tua, assim, como nenhuma foi!

                       Leonor de Almeida


     Leonor de Almeida  nasceu  no Porto, no primeiro quartel do séc XX e faleceu em Lisboa, em 1983.
     Escreveu quatro livros de poesia: Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953) e Terceira Asa (1960). 
     É considerada uma das melhores poetas portuguesas da poesia moderna. A sua temática enquadra-se numa visão pan-erótica do Universo.


domingo, 6 de setembro de 2020

OS SARAUS MEDIEVAIS



    
     A poesia trovadoresca, de que tenho vindo a falar, designava-se também palaciana porque era cantada na corte do rei, bem como nos solares dos nobres mais importantes.
     Acontecia nos saraus ,que eram eventos de distração das classes mais privilegiadas, o clero e a nobreza. Como foi explicado, havia nessas cortes alguns jograis residentes a quem era garantido emprego e alimentação gratuita. Às bailarinas, conhecidas por soldadeiras, não era permitida a permanência por tempo superior a três dias.


Da autoria de Américo Cortez Pinto, transcrevo a descrição adaptada de um sarau medieval:


     "Dinis e Isabel, sobre o estrado coberto de colorido tapete mourisco e alteado cerca de palmo e meio sobre o pavimento, presidiam ao sarau, sentados em solenes cadeiras de espaldar (...) tendo ao lado o príncipe sisudo e curioso e a infanta de Castela, sua noiva. Talhado pelo alfaiate real, esplendia o manto de el-rei de escarlate vermelha de Inglaterra, debruado a ouro e prata de gola emplumada de penas de aves e forrado a pele de arminho.
     A figura da rainha impunha-se pela sua majestade. A cabeça resplandecia com os seus cabelos loiros envolvidos em doirada coifa de rede sobre a qual assentava a coroa (...) cravejada de esmeraldas. O manto de escarlate amarela, cor reservada às damas de alta linhagem, preso sobre o ombro com um rico medalhão punha a descoberto a veste de brocado branco bordada a ouro (...).
Os serviçais de copa ofereciam água às mãos que lançavam de jarros com água de rosas sobre bacias de prata.
     Nas compridas mesas, (...) grandes escudelas (tigelas) e talhadores (travessas) abarrotavam de vitualhas: capões, pavões, perdizes, carneiros, cabritos, javalis cortados em largos nacos (...), empadas recheadas de variada caça... e entre outras iguarias belas talhadas de baleia de Atouguia (...). Para sobremesa, variadas frutas frescas e secas, queijos, tigeladas, marmeladas e demais doçarias de mel e até algumas feitas com açúcar de Alexandria (...) que no tempo custava 50 vezes mais que o mel. Bojudos vasos transbordavam de vinho e hidromel.
     Os jograis enchiam a sala. Alguns havia que traziam consigo soldadeiras mouriscas e bailadeiras que dançavam de braços erguidos acompanhando a música com passos de bailado, requebros de corpo e serpentear de braços.
     A seguir vinham os bobos fazendo magias, palhaçadas acrobáticas e bobices...
     Porém, a parte mais nobre do sarau era aquela em que se cantavam e diziam as canções dos trovadores ao som dos instrumentos de corda tangidos com o arco, dedilhados à mão ou elegantemente vibrados com longas penas de aves."




terça-feira, 1 de setembro de 2020

POETAS MEDIEVAIS

D. DINIS



Amiga, há muito tempo
que se foi daqui com el`rei
meu amigo, mas já pensei
mil vezes no meu coração
que algures morreu com pesar,(tristeza)
pois comigo não tornou a falar.

Por que tarda tanto por lá
E nunca me tornou a ver,
amiga, assim eu tenha  boa sorte,
mais de mil vezes pensei já
que em algum lado morreu com pesar,(tristeza)
pois comigo não tornou a falar.

Amiga, por sua vontade
era tornar cedo aqui
onde me pudesse ver,
e por mil vezes pensei eu
que em algum lado morreu com pesar,(tristeza)
pois comigo não tornou a falar.



    Enquanto rei, D. Dinis enfrentou o problema da guerra civil. Desenvolveu a agricultura,
a marinha e preocupou-se com o ensino. Em 1290, fundou em Lisboa os Estudos Gerais, 
precursores da Universidade, onde se ensinava Artes, Direito Civil, Direito Canónico e 
Medicina. Contribuiu para a definição da Língua Portuguesa e foi um renomado trovador, 
que cultivou cantigas de amor e de amigo .