sábado, 11 de setembro de 2021

 POESIA PALACIANA




Comigo me desavim


Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

 

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

 

            Sá de Miranda



       Sá de Miranda é outro consagrado poeta do Cancioneiro Geral.
        No séc. XVI, é o poeta mais lido depois de Camões.
        Homem muito viajado e culto, a ele se deve a introdução do soneto, 
em Portugal.

sábado, 4 de setembro de 2021

 PRÉMIO NACIONAL DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA



        Manuel Alegre venceu, por unanimidade, o prémio supracitado, que lhe será entregue, hoje, no Auditório da Biblioteca Municipal de Faro António Ramos Rosa.
        O prémio distinguiu o seu livro "Quando" publicado em novembro de 2020.





Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como 
dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

 Manuel Alegre






           Natural de Águeda, onde nasceu em 12 de maio de 1936, Manuel Alegre é um político e um poeta português.
      Este prémio é mais um dos muitos que recebeu ao longo da sua atividade, enquanto poeta.
           Opositor ao regime anterior ao atual, esteve exilado, tendo regressado a Portugal após o 25 de abril de 1974. 
É considerado uma das vozes mais fortes da atual poesia portuguesa.

sábado, 28 de agosto de 2021

 POETAS DE PARABÉNS

MIGUEL TORGA






Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga







        Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta em 12 de agosto de 1907 e faleceu 
em Coimbra, em 17 de janeiro de 1995.
        Oriundo de uma família humilde que trabalhava na agricultura, começou a trabalhar 
com 10 anos de idade. Após uma curta passagem pelo seminário emigrou  para 
o Brasil aos treze anos para trabalhar numa fazenda de café, pertencente a um tio.
Devido à sua enorme capacidade de aprendizagem o tio permitiu-lhe que ´prosseguisse os
 estudos, no Brasil. Cinco anos volvidos regressa a Portugal, conclui os estudos liceais 
e acaba por se licenciar em Medicina, na Universidade de Coimbra.
        Médico de profissão, dedicou-se intensamente à atividade literário tornando-se num dos
grandes escritores do séc.  XX português, tanto na prosa como na poesia.
        Largamente premiado pela sua obra literário recebeu também o Prémio Camões,
o mais importante na língua portuguesa.


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

  XII Interação Fraterna

Rosélia Bezerra



Aniversário do blog "Idade Espiritual"

É sugestiva a imagem
Do caminho emoldurado,
Que perfuma a paisagem
Dum cenário encantado.

Passaram-se doze anos,
Largos meses, muitas horas,
Venceram-se desenganos
São justos os meus emboras.

Minha crença seja dita
Os doze não são demais
E toda a gente acredita
Que hão-de vir muitos mais.

Mantenha o blog de pé,
Com caráter, atitude,
Expressando sua fé
Numa vida com saúde.

Juvenal Nunes

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

 POEMAS POR TEMAS




Tema: Sonho


Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita, 
Aquela que diz tudo e tudo sabe, 
Que tem a inspiração pura e perfeita, 
Que reúne num verso a imensidade! 

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...

Florbela Espanca




        Florbela Espanca, reconhecida figura cimeira das letras portuguesas,
notabilizou-se como exímia sonetista.
        Alentejana natural de Vila Viçosa, desistiu de viver em Matosinhos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021




Velejar

Já sopra o vento mareiro,
Iça a âncora do cais,
Solta a vela marinheiro,
Deixa atrás os areais.

Uma onda enrolada,
Levada pelas marés,
Abraça a areia molhada
Ao meu amor beija os pés.

Insufla a vela ao vento,
Balança a barca no mar,
O vento a todo o momento
Faz a barca bolinar.

Lenço branco a acenar,
Longe, na praia deserta,
Barca a vogar no mar
Minhas saudades aperta.

Insufla a vela ao vento
Soprando a todo o momento
Faz vogar a caravela,
Invadido num tormento,
Mão em concha sobre a fronte
A temer qualquer procela
Deixo atrás o horizonte
Com o sol a arroxear
Em painel de maravilha,
Sulca as águas a quilha,
Tenho pressa de voltar
No sonho de te abraçar.


Juvenal Nunes





segunda-feira, 2 de agosto de 2021

 HOMENAGEM PÓSTUMA 

A

PEDRO TAMEN (1934-2021)



E é a tua sombra, e é e se desfaz

E é a tua sombra, e é e se desfaz,
se faz raiz e grão
no que te tenho aqui.
O dedo de penumbra que me dás
aumenta a minha mão
e tem-me em ti.

Chocalha agora a tarde nas coleiras
de ovelhas indiferentes;
tudo com elas fica, e as oliveiras,
não vistas, mas presentes.
Abafo-me com isto; ao seu calor
o nosso sangue é um e amadurece.
Boa-noite, meu amor.
Boa-noite, que amanhece.

          Pedro Tamen








     Nascido em Lisboa em 01 de dezembro de 1934, Pedro Tamen faleceu no passado 
dia 29 de julho de 2021, em Setúbal.
     Notabilizou-se como poeta e tradutor. Ao longo da sua vida foi agraciado com inúmeros 
prémios, tanto ao nível da arte poética como da tradução.
     A ministra da Cultura de Portugal classificou-o como «figura maior da literatura portuguesa».
Poeta contemporâneo de virtudes clássicas, foi também  promotor de vários projetos
culturais. 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

 POETAS DE PARABÉNS

GASTÃO DA CRUZ



Ramo

Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem

Gastão Cruz












        Gastão Cruz nasceu em Faro, em 20 de julho de 1941.
        É poeta e escritor, crítico literário, encenador e tradutor.
        Nos anos 60, colaborou nas revistas O tempo e o Modo, Seara Nova e 
Os Cadernos do Meio-Dia.
        Criou o Grupo de Teatro Hoje e fez a tradução de peças de grandes clássicos.
        A sua atividade como poeta valeu-lhe a atribuição de vários prémios, entre os quais
o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

 POEMAS POR TEMAS


                                                                                  
                                                                              

 Tema: Solidão


SOLIDÃO

Desesperança das desesperanças...
Última e triste luz de uma alma em treva...
— A vida é um sonho vão que a vida leva
Cheio de dores tristemente mansas.

— É mais belo o fulgor do céu que neva
Que os esplendores fortes das bonanças
Mais humano é o desejo que nos ceva
Que as gargalhadas claras das crianças.

Eu sigo o meu caminho incompreendido
Sem crença e sem amor, como um perdido
Na certeza cruel que nada importa.

Às vezes vem cantando um passarinho
Mas passa. E eu vou seguindo o meu caminho
Na tristeza sem fim de uma alma morta.

Vinicius de Moraes







        Vinicius de Moraes é o nome de um poeta brasileiro nascido no
Rio de Janeiro em 19 de outubro de 1913 e falecido na mesma
cidade, em 9 de julho de 1980.
        Foi também jornalista, diplomata, dramaturgo, cantor e compositor.
        É detentor de uma larga obra, tendo obtido grande notoriedade em
todas as áreas a que se dedicou.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

 POESIA PALACIANA




 Meu amor, tanto vos quero

 Meu amor, tanto vos quero,
que deseja coração
mil coisas contra a razão.
Porque se não vos quisesse,
como poderia ter
desejo eu me viesse
do que nunca pode ser.
Mas com tanto desespero,
tenho em mim tanta afeição
que deseja o coração.

Aires Teles





     Aires Teles de Menezes, de seu nome completo, foi um escritor português,
que se encontra representado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.
     Enquanto cortesão, serviu no espaço palatino do rei D. João II como mordo-
mo-mor da rainha D. Leonor, esposa do monarca.
     Faleceu num convento franciscano, onde se havia recolhido, no dealbar
século XVI.

sexta-feira, 2 de julho de 2021





Ninho de Melro

Num ninho bem preparado,
Melro de negra plumagem,
Bem sedosa e luzidia,
Em um ramo bifurcado
Enfrenta entre a folhagem
O mau tempo e a ardentia,
No cenário do valado.

Seu ninho é construção
De paus secos e gravetos,
Abrigo da criação
Dos seus filhotes diletos.

Na perfeição dos urdumes,
Aconchegados no ninho
De olhos cerrados, implumes,
Dos pais recebem carinho.

No bico levam biscato,
Que lhes serve de alimento,
Resultando desse ato
O seu alento e sustento.

Mas só vão comer sozinhos
E aprender a voar,
Depois que deixam os ninhos
Com os pais a ajudar.

Sendo os melrinhos criados,
É a vida a voar,
Que vemos sobre os silvados,
Ouvimos o seu cantar,
Num concerto musical
Sobre campinas e prados,
Como não há outro igual.

               Juvenal Nunes




quinta-feira, 1 de julho de 2021

 HOMENAGEM A MACHADO DE ASSIS

DESAFIO LITERÁRIO

UM SONETO PARA MACHADO DE ASSIS





     Terminou o prazo para a participação no desafio literário Um Soneto para Machado de Assis.
     Tal como Bentinho se sentiu malogrado por não ter conseguido escrever um soneto
para a sua amada, também eu me senti tomado por igual sentimento, face ao reduzido
número de participantes.
     Houve inúmeras manifestações de apoio à iniciativa, mas que não se traduziram, na prática,
no envio dos sonetos solicitados. O reduzido número de participantes tornou inviável a votação
prevista, para o escalonamento de um pódio.
     Assim sendo, endereço os meus parabéns ao Santos Oliveira e ao Manuel Bragança dos Santos
por terem encarado e respondido ao desafio, duma forma que o valorizou.
     Deixo-lhes um testemunho de participação, caso o pretendam usar no vosso blog.
     Muito obrigado a todos.

                                                                                                         Juvenal Nunes



segunda-feira, 21 de junho de 2021

 HOMENAGEM A MACHADO DE ASSIS

DESAFIO LITERÁRIO

UM SONETO PARA MACHADO DE ASSIS





Destino

Oh! Flor do Céu! Oh! Flor cândida e pura!
A pespontar no mais vasto jardim,
A tua ausência é a noite escura,
Que me enleia num tormento sem fim.

Minha alma ardente sempre te procura
Guiada  pelo aroma de jasmim,
Cujo hausto se eleva com doçura
E do teu céu me faz seu querubim.

Fico vogando nesse espaço etéreo,
Sem sentir em teu corpo aquele abraço,
De que fica apenas leve poalha.

Reverto desse virtual sidéreo
À realidade de cada passo... 
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

Juvenal Nunes






     Caso fosse vivo, Machado de Assis completaria, hoje, mais um aniversário de nascimento.


quinta-feira, 10 de junho de 2021

                   DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS                                                                                                                                                         





Dia de Portugal

É no dia 10 de junho
O dia de Portugal,
Sendo desse testemunho
Feriado nacional.

Celebramos a Camões:
Foi cortesão e guerreiro,
Entre outras recordações
É das letras o primeiro.

Correndo riscos mil vezes,
Ao longo doutras idades,
Criaram os portugueses,
No mundo, comunidades.

Dentre «as brumas da memória»,
Neste dia, uma nação,
De passado com história
Cerra laços de união.

        Juvenal Nunes




sábado, 5 de junho de 2021

 POEMAS POR TEMAS




Tema: Erotismo


Teu corpo claro e perfeito

Teu corpo claro e perfeito,
-- Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo o que cheira…
Rosa… flor de laranjeira…

Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado…

Teu corpo é pomo doirado…

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume…

Teu corpo é a brasa do lume…

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes…

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Quem em antigas se derrama…

Volúpia da água e da chama…

A todo o momento o vejo…
Teu corpo… a única ilha
No oceano do meu desejo…

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira…
Rosa, flor de laranjeira…

Manuel Bandeira






     Manuel Bandeira é um escritor brasileiro, que se notabilizou na área da poesia.
     Fez parte da geração do modernismo do Brasil.
     A sua reputação permitiu-lhe ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.

     

     A pintura representada é um óleo sobre tela de 1888, de Albert Aublet, intitulada
Une Beauté Orientale.


terça-feira, 1 de junho de 2021

HOMENAGEM A MACHADO DE ASSIS

DESAFIO LITERÁRIO 

UM SONETO PARA MACHADO DE ASSIS




Machado de Assis é o expoente máximo da literatura brasileira. Dividiu com Eça de Queiroz a hegemonia das letras lusófonas, no séc. XIX e é considerado um dos grandes génios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.

Nascido a 21 de junho de 1839, o Palavras Aladas tomou a iniciativa de o homenagear, ao longo de todo o mês de junho, através de um desafio literário, que  propõe a todos os amigos leitores e poetas que costumam honrar este blog, com a sua visita e comentários.

A iniciativa não é inédita, mas é uma novidade aqui, no Palavras Aladas.

No capítulo LV do romance Dom Casmurro, o personagem Bentinho tem uma noite de insónia levado pela preocupação de escrever um soneto para a sua amada Capitu. Apesar de todos os seus esforços não consegue passar do primeiro verso, que aqui se dá a conhecer:

 

“Oh! Flor do Céu! Oh! Flor cândida e pura!”

 

Abrasado pela paixão, continuou a debater-se pelo desenvolvimento do texto, mas não conseguiu avançar com mais palavras tendo, no entanto, conseguido forjar o último verso, que imaginou ser a chave de ouro:

 

“Perde-se a vida, ganha-se a batalha!”

 

Apesar de já ter um princípio e uma conclusão, baldaram-se todos os seus esforços para produzir o soneto completo e, num último assomo, considerou que a alteração do último verso para:

 

“Ganha-se a vida, perde-se a batalha!”

 

podia contribuir para trazer a inspiração, que não chegou ,e por isso, não escreveu o soneto.

A partir daqui é proposto ao leitor que tome  a iniciativa de escrever o soneto com o 1º verso sugerido e o conclua com uma, das duas propostas apresentadas.

A todos os interessados em participar, nesta iniciativa,  ficam os pressupostos:

 

1º - Deixar o seu comentário nesta publicação, comunicando a sua participação para se poder adicionar o link da participação.

2º -  Escrever um poema respeitando a estrutura formal do soneto, incluindo métrica e rima.

3º - Respeitar a sugestão sugerida para o 1º verso e uma das duas para o último.

4º - Dar um título ao soneto.

5º - Postar o texto no seu blog, antecedido do selo apresentado.

6º - Deixar o link da sua postagem, nos comentários do blog Palavras Aladas.

 

No final, a votação, com a participação de todos os intervenientes, escalonará um pódio de três posições.

Bom trabalho e mãos à obra.            

                                                    

                                                                                               Juvenal Nunes



Participantes:


Santos Oliveira: https://acordarsonhando.blogspot.com/>UM SONETO PARA MACHADO DE ASSIS<


Juvenal Nunes:https://palavrasaladas1952.blogspot.com>Destino<


Manuel Bragança dos Santos: http://maranduvaline.blogspot.com>Bentinho e Capitu>



quinta-feira, 27 de maio de 2021

POETAS DE PARABÉNS

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO 







Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto divagar em paz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente de novo, fui-me a Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti, mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes e esguios.

Mário de Sá-Carneiro







   Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa , em 19/05/1890 e faleceu em Paris, em 26/04/1916.
   Enquanto poeta, teve uma fugaz mas brilhante carreira literária porquanto, por ser socialmente
inadaptado e instável psicologicamente, viria a cometer suicídio num hotel, em Paris.
   É um dos responsáveis pela introdução do Modernismo, em Portugal, tendo feito parte da
Geração d`Orpheu.
   Notabilizou-se, também, como contista e ficcionista.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

 



Dias de Maio

Desaparece a neblina,
Ao brilho do sol nascente,
Luz em fundo de opalina,
Na ramagem mais virente.

Esvoaçam borboletas
Em um bailado de cor,
Sempre leves, inquietas,
Das flores sempre em redor.

Num constante voejar,
Na cadência dos zumbidos,
As abelhas vão libar
No gozo dos seus sentidos.

As formigas no carreiro,
Na sua marcha ordenada,
Levam para o formigueiro 
Toda a comida encontrada.

Nos céus há belos trinados,
Que ecoam sobre os trigais,
São pássaros namorados
Em seus cantos nupciais.

Ao longo do mês de maio,
No seu voo elegante,
Canta no bosque o gaio
Ouvindo-se a cada instante.

Sobre tudo o sol pesponta
Nesta natureza viva
Que a todos bem importa,
Tem a força de criar,
Já que a todos nos motiva
Com os produtos da horta 
E os frutos do pomar.

Juvenal Nunes



terça-feira, 11 de maio de 2021

 POEMAS POR TEMAS




Tema: Mãe


Vem Ver a Minha Mãe

Está junto das coisas que bordaram
com ela os dias que supôs mais belos
e são a fonte de onde lhe começa
o branco tempo dos cabelos.

Mal pousa a vida nos seus dedos gastos
do sonho que pousou na minha mão
e no sangue tão frágil que sustenta
tanta ternura e tanta solidão.

        Vítor Matos e Sá






        Vítor Matos e Sá é um poeta português natural de Lourenço Marques, 
atual cidade de Maputo.
        É licenciado e doutorado em Filosofia pela Universidade de Coimbra,
onde também foi docente.
        A sua poesia reveste-se de uma preocupação especulativa de base filosófica, 
em que são patentes as marcas sobre a experiência existencial.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

 POESIA PALACIANA





De Fernão Lobato a ua senhora que servia

 

A vós a que por meu mal

meu serviço obriguei,

que por morte acabarei

de vos ser sempre leal.

Tanto sam vosso, senhora,

quanto eu de mim conheço,

que nam quisera ser agora

Polo mal que já padeço.


Ca em mim nam estaa poder,

senhora, de me partir

nem vontade de servir

nunca m`haa- de falecer.

 

Ca raiva meu coraçam,

onde jaz na parte esquerda,

por temer que sem rezam

há-d`haver mui grande perda.

 

E que perda tanto seja

quanta vos dizer nam posso,

a vontade de ser vosso

é, senhora, mais sobeja.

Ca segundo meus sentidos

vos fazem, senhora, de mim

os meus males conhecidos

vos faram ver minha fim.

 

Vossa fala graciosa

me tem posto tal cuidado

que per mim nam sam ousado

dizer sem licença vossa.

Mas peroo que tal desejo

algum homem ter quisesse

em amar a tam sobejo

nam creo que ser podesse.

 

A vós per quem tribulança

o meu mal é a tam grande

que me faz vos nam demande

a verdadeira esperança.

E vós, senhora poderosa,

farês bem satisfazer,

com vontade piadosa,

a quem vive sem prazer.

 

 

De mim se poderaa dizer

que vos amo lealmente,

sem poder de vós saber,

senhora, se sôes contente.


        Fernão Lobato






      A imagem apresentada pode muito bem representar a dama a quem 
Fernão Lobato dedica seu poema.