sábado, 26 de dezembro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

ALEXANDRE O´NEILL



Gato


Que fazes por aqui, ó gato?

Que ambiguidade vens explorar?

Senhor de ti, avanças, cauto,

meio agastado e sempre a disfarçar

o que afinal não tens e eu te empresto,

ó gato, pesadelo lento e lesto,

fofo no pêlo, frio no olhar!

 

De que obscura força és a morada?

Qual crime de que foste testemunha?

Que deus te deu a repentina unha

que rubrica esta mão, aquela cara?

Gato, cúmplice de um medo

ainda sem palavras, sem enredos,

quem somos nós, teus donos ou teus servos?

 

Alexandre O` Neill





     Alexandre O`Neill nasceu em Lisboa, em 19 de dezembro de 1924 e faleceu, na
mesma cidade, em 21 de agosto de 1986. 
     Fez parte integrante do movimento surrealista português. Marcou posição contra a
política do Estado Novo, mas nunca pertenceu a nenhum partido político.
     Autor de vasta obra tem em Uma Coisa em Forma de Assim o expoente máximo
do seu estro.
 

domingo, 20 de dezembro de 2020

 XI INTERAÇÃO FRATERNA DE NATAL



Alegria na Simplicidade do Natal



Simplesmente Natal


No seu humilde natal,
Na frialdade da palha,
Jesus recusa o esplendor,
Nasce num pobre curral
E a humanidade agasalha
Num belo ato de amor.

Nessa hora de alegria,
Cheia de simplicidade,
Sua luz é melodia
Bem de toda a humanidade.

        Juvenal Nunes

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 POEMA DE NATAL



ESTRELA DE NATAL
 

Numa gruta, em Belém,

Viu a luz o Deus-Menino,

Nascido da Virgem Mãe

Para cumprir seu destino.

Logo aos vagidos primeiros

Maria muda os cueiros

Humanizando o divino.

 

Arrimado ao seu bordão,

Em atitude zelante,

S. José cumpre a missão

Sempre calmo e vigilante.

Olha a vaca paciente

E o burro que o ambiente

Aquecem com a respiração.

 

Nessa aurora de Natal,

Entoando melodias

Na ordenha matinal,

Pastores das cercanias

Dão das ovelhas o leite,

Que por bem é logo aceite

Guardado nas almofias.

 

Moleiros vindos do rio

Trazem sacos de farinha

Lidando num corrupio

Logo pela manhãzinha,

Para terem pronto o pão

Da primeira refeição,

 Lá no forno da cozinha.

 

Acorrem num alvoroço,

Acodem à Boa Nova,

A Jesus menino e moço.                             

Dos camelos, na corcova,

Chegam mais tarde os Reis Magos

Guiados pelos oragos,                                                       

Que na lapa fazem prova.

 

A estrela que foi guia

Para dar, de noite, a luz,

Ainda hoje irradia

Da pessoa de Jesus.

 

                           Juvenal Nunes



quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

 POESIA PALACIANA




AUTO DA VISITAÇÃO OU MONÓLOGO DO VAQUEIRO

Meu caminho não errou?
 Deus queira que seja aqui,
 que eu já pouco sei de mi,
 nem deslindo aonde estou.
 Nunca vi cabana tal
 em especial
 tão notável de memória:
 esta deve ser a glória
 principal
 do paraíso terreal!
 Seja que não seja, embora,
 quero dizer ao que venho,
 não diga que me detenho
 a nossa aldeia já agora.
 Por ela vim saber cá
 se certo é
 que pariu Vossa Nobreza?
 Crei' que sim, que Vossa Alteza
 tal está
 que de isto mesmo dá fé. 

               GIL VICENTE



     Neste excerto da peça elaborada para comemorar o nascimento do príncipe herdeiro,
 o futuro rei D. João III, Gil Vicente dirige-se à rainha D. Maria, esposa de D. Manuel I.
 A peça fora encomendada pela rainha viúva, D. Leonor, irmã de D. Manuel I e tem a sua
 representação na corte, na própria câmara de D. Maria, que acabara de dar à luz.
     Esta peça marca o nascimento oficial do teatro português, do qual Gil Vivente é 
considerado  criador e lídimo representante.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

 POEMAS POR TEMAS



Vaidade, Tudo Vaidade!

 

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!

Ouve: quando eu, um dia, for alguém,

Tuas amigas ter-te-ão amizade,

(Se isso é amizade) mais do que, hoje têm.

 

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,

Tudo vaidade! E, se pensares bem,

Verás, perdoa-me esta crueldade,

Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

 

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna

E eu vi-me só no mar com minha escuna,

E ninguém me valeu na tempestade!

 

Hoje, já voltam com seu ar composto,

Mas eu, vê lá! Eu volto-lhes o rosto…

E isto em mim não será uma vaidade?

 

António Nobre



Tema: A Vaidade


          António Nobre foi um poeta portuense, que representou as correntes simbolista, 
    ultarromântica e saudosista.
          Em vida, publicou apenas um livro intitulado Só. 
          Faleceu prematuramente, aos 32 anos, ceifado pela tuberculose.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



MAR

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são
puras.

        Sophia de Mello Breyner Andresen



     Sophia de Mello Breyner Andresen é uma poetisa natural do Porto, onde nasceu 
em 5 de novembro de 1919.
     Foi tradutora e o seu talento manifestou-se também na prosa, tendo escrito livros 
de contos infantis.
     Foi a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o Prémio Camões.
     Encontra-se sepultada no Panteão Nacional.


segunda-feira, 16 de novembro de 2020



Sinfonia


Pelo teu corpo caminho
Meus dedos silenciosos,
Guitarra a gemer baixinho,
Sons de acordes maviosos,
Em sonata de carinho.


Nas vibrações musicais,
Das almas em harmonia,
Há cantos de madrigais,
Que dão à noite estrelada
Sons de bela  sinfonia.


E o canto da madrugada,
Que nova luz anuncia,
A voz confunde em teu peito
Pois canta do mesmo jeito
Que a alegre cotovia.


Juvenal Nunes



terça-feira, 10 de novembro de 2020

 LUGAR AOS NOVOS

ANDREIA C. FARIA


Descarnação

Até aos trinta anos tens
a cara que Deus te deu. Depois
tens a cara que mereces. É uma promessa
de ironia, uma sentença sem recurso.

É-te assim dito:
estás entregue ao labor íntimo
do que comes, ao número de horas que dormes,
àquilo que fazes e sobretudo
àquilo em que pensas. Deus
(perdoa-lhe a fraqueza)
tolera-nos enquanto somos jovens,
ampara-nos, alisa-nos
a fronte após um desgosto, talvez
nos ame, mas deixa-nos
sozinhos quando a beleza
é terreno pouco firme

e assiste de longe
ao desafio temerário que lançou
a cada filho.

Sabes então que o rosto é uma flor
plantada no escuro, uma corola
tenra, redonda e impenetrável
que desabrocha e se abre
com as pétalas lisas e brilhantes, ou
confusas e despenteadas,
conforme a força
e a direção do vento.

Andreia C. Faria




     Andreia C. Faria é já um valor consagrado da atual poesia portuguesa. Em 2018
venceu o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores – SPA – com o livro de poesia
Tão Bela Como Qualquer Rapaz. Em Julho deste ano foi distinguida, unanimemente,
com o Prémio Literário Fundação Inês de Castro, pela publicação do seu livro Alegria
Para o Fim do Mundo.
     Foi precisamente o título deste livro que serviu de mote para a Feira do Livro do Porto 2020.
     É ainda autora das obras De Haver Relento (2008), Flúor (2013) e Um Pouco Acima do Lugar Onde Melhor se Escuta o Coração (2015).
     Os críticos renderam-se à sua obra e Valter Hugo Mãe diz que o seu trabalho “está entre os mais urgentes, magníficos, da poesia contemporânea”.

     

terça-feira, 3 de novembro de 2020

 POESIA PALACIANA



A Poesia Palaciana

 

A evolução da produção poética fez com que,  à poesia Trovadoresca, sucedesse a poesia Palaciana, que se integra no movimento do Humanismo, que vai durar até cerca de 1527.

Garcia de Resende foi um dos elementos mais preponderantes deste período e a ele se deve a compilação desta produção poética, no seu Cancioneiro Geral.

A generalidade dos autores portugueses deste período conviveram, intelectualmente, com poetas espanhóis e italianos, além de autores do classicismo romano, o que, muito naturalmente, os influenciou.

Numa viagem feita a Itália, Sá de Miranda introduziu pela primeira vez, em Portugal, o soneto, dando origem, dessa maneira, a uma nova estética poética. 

São vários os representantes portugueses deste movimento. Por agora, contudo, gostaria de deixar o belo poema de João Roiz de Castelo Branco Cantiga sua Partindo-se, na voz de Amália Rodrigues.





terça-feira, 27 de outubro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

ANTÓNIO RAMOS ROSA





Viste o cavalo varado a uma varanda?


Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.


António Ramos Rosa


     António Ramos Rosa nasceu em Faro, em 17 de outubro de 1924 e faleceu 
em Lisboa, em 23 de setembro de 2013.
     É considerado um dos maiores representantes da poesia contemporânea 
portuguesa.
     Publicou a revista Cadernos do Meio-Dia e foi um dos fundadores da revista 
de poesia Árvore. 
     Autor de uma extensa obra poética, recebeu inúmeros prémios literários
de que destaco o Prémio Pessoa, em 1988.
     A Universidade do Algarve atribuiu-lhe, em 2003, o grau de Doutor Honoris Causa.


sábado, 17 de outubro de 2020

 



Olhos Negros


Sei duns belos olhos pretos,

Com que nos meus te demoras,

A piscar sempre indiscretos,

Águas de expressão de amoras.


Nesses olhos há o brilho

Em que se reflete o sol,

Luz em que me maravilho,

Da alma, fundo crisol.


Nessa expressão sem queixume,

Com alegria eu vejo

Todo o inflamado lume

Com que se acende o desejo.


Sempre que à noite escurece,

Teu olhar é luz que guia

O sentir do amor que aquece,

Nessa luz que me alumia.


               Juvenal Nunes





sexta-feira, 9 de outubro de 2020

 POEMAS POR TEMAS


Saudades


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

                              Florbela Espanca


Tema: A Saudade

                Florbela Espanca é uma poeta portuguesa consagrada pela superior
          qualidade dos seus sonetos.
               O seu talento espraiou-se também, na prosa, como contista.

sábado, 3 de outubro de 2020

 POESIA PALACIANA




     A poesia palaciana representa a segunda fase da poesia portuguesa, na história da nossa
 literatura.
     A designação de palaciana deve-se ao facto de ser declamada pelos nobres, nos serões 
palacianos.
     O seu início encontra-se associado ao declínio da ação dos jograis e à nomeação de
 Fernão Lopes, em 1418, para chefe dos arquivos do Estado.
     A poesia palaciana refletia a visão do mundo dos nobres. A mulher não era tão idealizada
 como no trovadorismo e o amor é apresentado de uma forma mais sensual.
     Esta poesia também sofreu alterações no seu aspeto formal. A sua escrita obedecia a métrica,
 feita em redondilhas maiores e menores. Tinha mais ritmo e expressividade, muitas vezes
 a partir de um mote, que se desenvolvia em glosa.
     Um dos seus principais cultores foi João Roiz de Castelo Branco, que dedicou este poema a
 uma dama da corte. 


Cantiga sua Partindo-se

Senhora, partem tão tristes
 meus olhos por vós, meu bem,
 que nunca tão tristes vistes
 outros nenhuns por ninguém.
 
 Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
 tão cansados, tão chorosos,
 da morte mais desejosos
 cem mil vezes que da vida.
 Partem tão tristes os tristes,
 tão fora d’esperar bem,
 que nunca tão tristes vistes
 outros nenhuns por ninguém.

     João Roiz de Castelo Branco


     João Roiz de Castelo Branco foi fidalgo da Casa Real, militar no Norte de África e poeta.
     Integrou as cortes de D. Manuel I e D. João III.
     O poema aqui publicado faz parte integrante do disco Fado Português, cantado pela fadista Amália Rodrigues.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

JOSÉ RÉGIO




          SONETO DE AMOR

 

Não me peças palavras, nem baladas, 
Nem expressões, nem alma… Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
 
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossa línguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
 
E em duas bocas uma língua…, - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
 
Depois… - abre os olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

 

                              José Régio



     José Régio nasceu em Vila do Conde, em 17 de setembro de 1901 e faleceu na mesma localidade, em 22 de dezembro de 1969. Foi um escritor português multifacetado, desenvolvendo a sua obra pela poesia e em diferentes domínios da prosa.
     Dirigiu a revista literária Presença, foi colecionador de arte sacra, desenhador e pintor. É um dos criadores da moderna literatura portuguesa.


sexta-feira, 18 de setembro de 2020



Outonal

Está o céu mais cinzento,
São já mais curtos os dias,
O vento, no seu lamento,
Faz tremer as ramarias.

As folhas, no seu bailado,
São pinceladas de cor,
Dando ao ar enevoado
Um efémero fulgor.

A árvore adormece,
Em seu pávido torpor,
E dormente permanece,
Do tempo sente o rigor.

                    Juvenal Nunes




sábado, 12 de setembro de 2020

HOMENAGEM A LEONOR DE ALMEIDA






     A Feira do Livro do Porto 2020 (28/08 a 13/09) homenageia, anualmente, um vulto das letras. Este ano, essa honra coube à poetisa Leonor de Almeida, que, espreitando embora do passado, se vê assim resgatada do esquecimento a que tinha estado votada.
     Desde 29/08/20 que o seu nome passou a figurar, numa lápide, na Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal, junto ao pé da tília que lhe foi atribuída. 
     Da sua frase: «Árvore! Porque não deitas mais diamantes sobre mim?!...», podemos dizer, agora, que a árvore a coroou com os louros, que lhe eram devidos.







POSSE

Vem cá! Assim, verticalmente!
Achega-te… Docemente…
Vou olhar-te… E, no teu olhar, colher
Promessas do que quero prometer,
Até à síncope do amor na alma!
Colemos as mãos, palma a palma!
A minha boca na tua  sem beijo…
Desejo-te, até o desejo
Se queixar que dói…
E sou tua, assim, como nenhuma foi!

                       Leonor de Almeida


     Leonor de Almeida  nasceu  no Porto, no primeiro quartel do séc XX e faleceu em Lisboa, em 1983.
     Escreveu quatro livros de poesia: Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953) e Terceira Asa (1960). 
     É considerada uma das melhores poetas portuguesas da poesia moderna. A sua temática enquadra-se numa visão pan-erótica do Universo.


domingo, 6 de setembro de 2020

OS SARAUS MEDIEVAIS



    
     A poesia trovadoresca, de que tenho vindo a falar, designava-se também palaciana porque era cantada na corte do rei, bem como nos solares dos nobres mais importantes.
     Acontecia nos saraus ,que eram eventos de distração das classes mais privilegiadas, o clero e a nobreza. Como foi explicado, havia nessas cortes alguns jograis residentes a quem era garantido emprego e alimentação gratuita. Às bailarinas, conhecidas por soldadeiras, não era permitida a permanência por tempo superior a três dias.


Da autoria de Américo Cortez Pinto, transcrevo a descrição adaptada de um sarau medieval:


     "Dinis e Isabel, sobre o estrado coberto de colorido tapete mourisco e alteado cerca de palmo e meio sobre o pavimento, presidiam ao sarau, sentados em solenes cadeiras de espaldar (...) tendo ao lado o príncipe sisudo e curioso e a infanta de Castela, sua noiva. Talhado pelo alfaiate real, esplendia o manto de el-rei de escarlate vermelha de Inglaterra, debruado a ouro e prata de gola emplumada de penas de aves e forrado a pele de arminho.
     A figura da rainha impunha-se pela sua majestade. A cabeça resplandecia com os seus cabelos loiros envolvidos em doirada coifa de rede sobre a qual assentava a coroa (...) cravejada de esmeraldas. O manto de escarlate amarela, cor reservada às damas de alta linhagem, preso sobre o ombro com um rico medalhão punha a descoberto a veste de brocado branco bordada a ouro (...).
Os serviçais de copa ofereciam água às mãos que lançavam de jarros com água de rosas sobre bacias de prata.
     Nas compridas mesas, (...) grandes escudelas (tigelas) e talhadores (travessas) abarrotavam de vitualhas: capões, pavões, perdizes, carneiros, cabritos, javalis cortados em largos nacos (...), empadas recheadas de variada caça... e entre outras iguarias belas talhadas de baleia de Atouguia (...). Para sobremesa, variadas frutas frescas e secas, queijos, tigeladas, marmeladas e demais doçarias de mel e até algumas feitas com açúcar de Alexandria (...) que no tempo custava 50 vezes mais que o mel. Bojudos vasos transbordavam de vinho e hidromel.
     Os jograis enchiam a sala. Alguns havia que traziam consigo soldadeiras mouriscas e bailadeiras que dançavam de braços erguidos acompanhando a música com passos de bailado, requebros de corpo e serpentear de braços.
     A seguir vinham os bobos fazendo magias, palhaçadas acrobáticas e bobices...
     Porém, a parte mais nobre do sarau era aquela em que se cantavam e diziam as canções dos trovadores ao som dos instrumentos de corda tangidos com o arco, dedilhados à mão ou elegantemente vibrados com longas penas de aves."




terça-feira, 1 de setembro de 2020

POETAS MEDIEVAIS

D. DINIS



Amiga, há muito tempo
que se foi daqui com el`rei
meu amigo, mas já pensei
mil vezes no meu coração
que algures morreu com pesar,(tristeza)
pois comigo não tornou a falar.

Por que tarda tanto por lá
E nunca me tornou a ver,
amiga, assim eu tenha  boa sorte,
mais de mil vezes pensei já
que em algum lado morreu com pesar,(tristeza)
pois comigo não tornou a falar.

Amiga, por sua vontade
era tornar cedo aqui
onde me pudesse ver,
e por mil vezes pensei eu
que em algum lado morreu com pesar,(tristeza)
pois comigo não tornou a falar.



    Enquanto rei, D. Dinis enfrentou o problema da guerra civil. Desenvolveu a agricultura,
a marinha e preocupou-se com o ensino. Em 1290, fundou em Lisboa os Estudos Gerais, 
precursores da Universidade, onde se ensinava Artes, Direito Civil, Direito Canónico e 
Medicina. Contribuiu para a definição da Língua Portuguesa e foi um renomado trovador, 
que cultivou cantigas de amor e de amigo .

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

POETAS DE PARABÉNS

CARLOS DE OLIVEIRA



Casa

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
 e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

                              Carlos de Oliveira

    Carlos de Oliveira nasceu em Belém, no Brasil, em 10 de agosto de 1921. É uma figura relevante da geração dos neo-realistas. Chegou a ser diretor da revista Vértice. Quando abandonou o ensino dedicou-se exclusivamente à literatura. Dispersou a sua atividade entre a prosa e a poesia. Foi galardoado com o prémio Bordalo em "Literatura" e com o prémio Cidade de Lisboa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020




Sonho de Verão

Tarde quente de verão,
Tarde doce, quente, amena,
É feliz meu coração
E bela a tarde serena.

Não sopra na sebe o vento,
Não bulem os pinheirais,
O rouxinol a contento
Vai cantando madrigais.

Rouxinol, ave de encanto,
Plumagem acetinada,
O teu mavioso canto
É melodia encantada.

As andorinhas nos ninhos,
Na tarde fresca e calma,
Cedem aos filhos carinhos,
Resquícios da sua alma.

Serpenteando formosa,
Correndo todo o jardim,
Pousa a abelha em toda a rosa,
Em cada cravo e jasmim.

Mas a leve mariposa
Surge como num lampejo,
Leve voa e, vaporosa,
A cada flor dá um beijo.

Ao zumbir cadenciado
Da abelha em cada canteiro
O pintassilgo cantado
Leva todo o cancioneiro.

E nas árvores da mata
Discutem alto os pardais,
No bosque a água em cascata
Espuma entre os salgueirais.

Nesta tarde quente e calma,
De espontânea natureza,
Meu coração e minha alma
Respiraram singeleza.

Se numa vida vivida,
No meio de ódio e guerra,
Pudesse ver repartida,
Nos quatro cantos da Terra,

A paz dum calmo ideal
Traduzido na pureza
Desse hálito virginal,
Que emana da natureza...

Meus sentidos agradados
Pensariam encontrar,
Como em delírios doirados,
A paz da força do amar.

Meu ser rejubilaria
Por ver encontrado, enfim,
Todo o mundo em harmonia
Na paz viva dum jardim.

                         Juvenal Nunes




quarta-feira, 12 de agosto de 2020

POEMAS POR TEMAS



O Companheirismo de uma Amizade




Quero ser o teu amigo.

Nem demais nem de menos.

Nem tão longe nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.

Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,

Da maneira mais discreta que eu souber.

Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.

Sem forçar tua vontade.

Sem falar quando for hora de calar.

E sem calar quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais.

Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

É bonito ser amigo, mas, confesso, é tão difícil aprender!

E por isso eu te suplico paciência.

Vou encher este teu rosto de lembranças,

Dá-me tempo de acertar nossas distâncias…


                Fernando Pessoa



Tema: A Amizade

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

POETAS MEDIEVAIS

AIRAS NUNES





Bailemos nós,  as três amigas ditosas,
sob estas aveleiras floridas
e quem for formosa, como nós, formosas,
se amigo amar,
sob estas aveleiras floridas
virá bailar.

Bailemos nós já todas três, ai irmãs,
sob este ramo destas aveleiras,
e nossa beleza, que nos faz gaiteiras,
se amigo amar,
sob este ramo destas aveleiras
virá bailar.

   Por Deus, ai amigas, enquanto outra coisa não fazemos, 
   sob este ramo florido bailemos, 
   e quem bem parecer, como nós parecemos,
   se amigo amar,
   sob este ramo, assim que nós bailemos,
   virá bailar.



     Airas Nunes foi um trovador medieval galego. Era possuidor de enorme cultura e esteve ao
serviço de Sancho IV, rei de Leão e Castela.

     A cantiga de amigo aqui apresentada é uma das mais célebres que nos foi legada pelo
Trovadorismo.
     Nas culturas antigas, as aveleiras estavam associadas a ritos nupciais, cujo simbolismo apresenta
um valor semelhante ao das atuais flores de laranjeira.