segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 POEMAS POR TEMAS

ESPERANÇA




Tema: Esperança


Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen








        Sophia de Mello Breyner Andresen é uma poetisa natural do Porto, onde nasceu
em 5 de novembro de 1919. Faleceu em Lisboa em 2 de julho de 2004.
        Foi tradutora e o seu talento manifestou-se também na prosa, tendo escrito livros
de contos infantis.
        Foi a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o Prémio Camões.
        Encontra-se sepultada no Panteão Nacional.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 Dulcilóquo





Dulcilóquo


Há no teu peito colinas
A rescender madrugadas
No aroma das boninas
Das manhãs mais orvalhadas.

Envolve-me nos teus braços
Para sentir a doçura
Com que aplacas meus cansaços
Nesse gesto de ternura.

A despetalar saudades,
Em completa sintonia,
Congregamos as vontades
Na mais perfeita harmonia.

Sempre que o amor nos seduz
Que nenhum de nós o tema,
Nele encontramos a luz
Nessa alegria suprema.

Juvenal Nunes



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

 O MODERNISMO

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO





Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro







        Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1890 e faleceu em Paris, em 
26 de abtil de 1916. Atingiu a notoriedade nas letras como ficcionista, contista e 
principalmente poeta. Nesta qualidade, tornou-se um dos grandes expoentes do 
modernismo em Portugal.
        Amigo pessoal de Fernando Pessoa dele se tornou, també, confidente. Viveu uma vida 
atribulado e, não tendo suportado a angústia existencial em que mergulhou, acabou por se suicidar.