sexta-feira, 3 de abril de 2026

 Informação

Informo todos os amigos visitantes, leitores e comentadores que o Palavras Aladas vai estar em pausa por alguns dias.

Voltarei a dar notícias assim que estiver de volta.

Muito obrigado pela atenção.

Juvenal Nunes



segunda-feira, 30 de março de 2026

 POESIA TRADUZIDA

MIGUEL UNAMUNO






PORTUGAL

Do atlântico mar na praia areosa
uma matrona descalça e desgrenhada
senta-se ao pé de uma serra coroada
por triste pinheiral. Nos joelhos pousa

os cotovelos e nas mãos a ansiosa
face, e olhos de leoa desconfiada
crava no poente; o mar dá a toada
trágica, de altos feitos sonorosa.

Fala de vastas terras e de azares
enquanto ela, seus pés nessas espumas
banhando, sonha no fatal império

que se sumiu nos tenebrosos mares,
e olha como entre agoureiras brumas
se ergue D. Sebastião, rei do mistério.

Miguel Unamuno





Miguel Unamuno nasceu em Bilbau em 29 de setembro de 1864 e faleceu em 31 de dezembro de 1936, em Salamanca. 
Talento multifcetado foi também poeta de nomeada. É o principal representante espanhol do existencialismo cristão.
Foi amigo pessoal de Teixeira de Pascoaes com quem trocava correspondência, estando também unidos pelo projeto comum de iberismo espiritual.


segunda-feira, 23 de março de 2026

 POEMAS POR TEMAS

BELEZA




Tema: Beleza


Menina

Menina de olhar sereno
Raiando pela manhã
De seio duro e pequeno
Num coletinho de lã
Menina cheirando a feno
Casado com hortelã.

Menina que no caminho
Vais pisando formosura
Levas nos olhos um ninho
Todo em penas de ternura.
Menina de andar de linho
Com um ribeiro à cintura.

Menina de saia aos folhos
quem te vê fica lavado
água da sede dos olhos
pão que não foi amassado.

Menina de riso aos molhos
minha seiva de pinheiro
menina de saia aos folhos
alfazema sem canteiro.

Menina de corpo inteiro
com tranças de madrugada
que se levanta primeiro
do que a terra alvoroçada.

Menina de fato novo
ave-maria da terra
rosa brava rosa povo
brisa do alto da serra.

José Carlos Ary dos Santos







        José Carlos Ary dos Santos, de seu nome completo, nasceu em Lisboa em 7 de dezembro 
de 1936, tendo falecido na mesma cidade, em 18 de janeiro de 1984.
        Consagrou-se como declamador e, nas letras portuguesas, como poeta.
        Como letrista de canções colaborou com grandes cantores portugueses, com especial realce 
para Fernando Tordo.
        Foi nessa qualidade que venceu 4 festivais da canção portuguesa, que apuraram Portugal 
para o Festival da Eurovisão.

segunda-feira, 16 de março de 2026

 O MODERNISMO

ALMADA NEGREIROS






O Eco

Tão tarde. Adão não vem ? Aonde iria Adão?
Talvez que fosse à caça; quer fazer surpresas com alguma corça branca lá da
floresta.
Era pelo entardecer, e Eva sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher também, também chamou
Adão.
Teve medo: Mas julgando fantasia chamou de novo: Adão? E uma voz de mulher
também, também chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as setas todas, e a caça era nenhuma!
E ele a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ela fugiu-lhe.

__ Outra que não ela chamara também por ele.

Almada Negreiros





        Artista de vibrante fulgor, Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe,
em 7 de abril de 1893 e faleceu em Lisboa, em 15 de junho de 1970. Cedo se
revelou precoce, pelo que foi um autodidata.
        O seu génio multifacetado espraiou-se pelas artes plásticas, pontificando
no desenho e na pintura e pela escrita, sobressaindo no romance,
poesia, dramaturgia e ensaio.
        Colaborou ativamente nas revistas Presença e Orpheu.
        É um dos principais representantes do modernismo português.

sexta-feira, 6 de março de 2026

 

AS CORES DO MEU REAL (JUEVES)




Paleta de Cores


Vasta paleta de cores
Não há noutra estação
A não ser na primavera,
Num tempo em que as flores,
Em completa redenção,
Não têm tempo de espera
Para pintarem a tela
Da paisagem a mais bela.

Cada qual no seu matiz
Dão ao mundo um ar feliz,
Não permitindo a quem olha
Decidir qualquer escolha.

Juvenal Nunes






                Aqui publico a minha participação ao desafio proposto pela amiga Rosélia.

segunda-feira, 2 de março de 2026

 POETAS DE PARABÉNS

CARLOS FARIA





Mapa-mundo

Aprendo, nas ilhas pequenas, que o mundo é exatamente do seu tamanho:
Sem filosofia nem cálculos matemáticos.
Golegã ou Nova Iorque?
São Jorge ou Madrid?
Espaço onde caiba um homem, e a sua geografia será história…
A ilha é pequena?
A ilha é pequena, sim? E depois?
O espaço que falta a uma ilha, seria se houvesse mais espaço, o espaço que sobejaria!

Carlos Faria





        Carlos Faria, de seu nome completo Carlos Patrício Barata Faria, nasceu na Golegã,
em 2 de março de 1929 e faleceu en Cascais em 16 de janeiro de 2010.
        Notabilizou-se como poeta tornando-se um apaixonado pelos Açores, em especial pela 
ilha de S. Jorge. Foi nos Açores que fundou, nos jornais locais, algumas páginas literárias que alcançaram gtande notoriedade.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 POEMAS POR TEMAS

ESPERANÇA




Tema: Esperança


Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen








        Sophia de Mello Breyner Andresen é uma poetisa natural do Porto, onde nasceu
em 5 de novembro de 1919. Faleceu em Lisboa em 2 de julho de 2004.
        Foi tradutora e o seu talento manifestou-se também na prosa, tendo escrito livros
de contos infantis.
        Foi a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o Prémio Camões.
        Encontra-se sepultada no Panteão Nacional.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 Dulcilóquo





Dulcilóquo


Há no teu peito colinas
A rescender madrugadas
No aroma das boninas
Das manhãs mais orvalhadas.

Envolve-me nos teus braços
Para sentir a doçura
Com que aplacas meus cansaços
Nesse gesto de ternura.

A despetalar saudades,
Em completa sintonia,
Congregamos as vontades
Na mais perfeita harmonia.

Sempre que o amor nos seduz
Que nenhum de nós o tema,
Nele encontramos a luz
Nessa alegria suprema.

Juvenal Nunes



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

 O MODERNISMO

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO





Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro







        Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1890 e faleceu em Paris, em 
26 de abtil de 1916. Atingiu a notoriedade nas letras como ficcionista, contista e 
principalmente poeta. Nesta qualidade, tornou-se um dos grandes expoentes do 
modernismo em Portugal.
        Amigo pessoal de Fernando Pessoa dele se tornou, també, confidente. Viveu uma vida 
atribulado e, não tendo suportado a angústia existencial em que mergulhou, acabou por se suicidar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 POETAS DE PARABÉNS

EDUARDO OLÍMPIO





Natal

Perguntei pelo Natal,
indicaram-me os rochedos.
Subi a altas montanhas,
só trouxe sustos e medos.

Um mendigo, previdente,
avisou-me: o Natal
fica na quilha de um barco
que ainda nem é pinhal.

E minha avó, mondadeira
do trigal que eu nunca tive,
dizia desta maneira:
— É dentro desta ribeira,
tecendo os bunhos da esteira,
que o Natal, em brasas, vive.

O vento nada sabia
e a noite, irada, afirmava
que o Natal é o meio-dia
de uma noite inacabada.

Li poemas, li romances,
mondei sonetos na horta:
Do Natal, só as nuances
da fome a rondar a porta.

Até que um dia, ó milagre,
levado pelo coração,
toquei teus seios redondos
- brancas rolas, róseos pombos -
e tive o Natal na mão!

Eduardo Olímpio




   Alentejano de Alvalade do Sado, onde nasceu a 24 de janeiro de 1933, Eduardo Olímpio é um prosador e poeta português.
     Cedo manifestou a sua veia poética, tendo sido bastante acarinhado e apoiado, logo a partir dos
bancos de escola, pelo seu professor.
Apesar da idade continua ativo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 POEMAS POR TEMAS

AFEIÇÃO





Tema: Afeição

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prá minha boca! ...

Florbela Espanca









        Alentejana de Vila Viçosa, Florbela de Alma da Conceição Espanca, de seu nome
completo, nasceu a 8 de dezembro de 1894 e despediu-se do mundo dos vivos, em Matosinhos, 
em 8 de dezembro de 1930.
        Florbela Espanca é uma poeta portuguesa consagrada pela superior qualidade dos seus sonetos.
       O seu talento espraiou-se também, na prosa, como contista.

domingo, 11 de janeiro de 2026

 INVERNO



Inverno

Sopra um vento que gela,
Do céu a chuva desaba,
O céu é cinzenta tela
Temporal que não acaba.

Cobre-se o chão de geada,
Evola-se o nevoeiro,
Ruge do vento a nortada,
Cai a chuva em aguaceiro.

Em silêncio cai a neve,
Tudo cobre de brancura,
Embora nevada breve
No tempo o manto perdura.

A vida cai num vazio,
Tempo de rigor intenso,
O inverno é duro e frio
Seu manto de neve imenso.

Juvenal Nunes




domingo, 4 de janeiro de 2026

 O MODERNISMO


        A dinâmica evolutiva da Poesia Portuguesa determinou que o Simbolismo desse lugar ao Modernismo.
        Esta corrente literária poética emergiu em 1915 com a publicação da revista Orpheu.
        O seu maior representante é Fernando Pessoa, que se destaca entre vários outros.

Fernando Pessoa







Cartas de amor são ridículas

 

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

 

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

 

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

 

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

 

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

 

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).

 

Fernando Pessoa








        Em 13 de junho de 1888, nasceu em Lisboa o poeta Fernando Pessoa que faleceu na mesma em 30 de novembro de 1935. Manifestou diversas personalidades literárias expressas nos diferentes heterónimos. É figura central do Modernismo português, que se gerou a partir da publicação da revista Orpheu.
        Foi também um homem multifacetado tendo sido tradutor, publicitário, astrólogo, filósofo, dramaturgo, ensaísta e crítico literário. A verdadeira dimensão da sua obra só foi conhecida postumamente.