sexta-feira, 14 de julho de 2023

 POEMAS POR TEMAS

VERÃO




Tema: Verão

Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas…

Cesário Verde





        Cesário Verde nasceu em Lisboa, em 25 de fevereiro de 1855 e faleceu na mesma cidade 
em 19 de julho de 1886. Partiu precocemente, aos 31 anos de idade, ceifado pela tuberculose 
pulmonar, que o atacou.
        Trata-se de um poeta de rara sensibilidade com um estilo poético muito peculiar e 
inovador.
        A sua obra retrata, atentamente, o quotidiano, numa constante dicotomia entre a cidade e o 
campo.

terça-feira, 4 de julho de 2023

 ADIVINHA QUEM VEIO PARA NIDIFICAR










                        Um pisco de ruivo peito
                      Teceu com muito lavor
                      Um ninho feito a preceito,
                      Em cima dum contador.









                         Fez, então, uma postura,
                      Que continha cinco ovos
                      Partindo para a aventura
                      De criar os ovos novos.







                        Nasceram como é costume
                      Com os olhos bem cerrados,
                      Todo o corpo está implume
                      A precisar de cuidados.








                        Com todo o amor e carinho
                      E desvelados cuidados,
                      No aconchego do ninho
                      Lá foram sendo criados.








                        Foram perdendo a penugem
                      Para dar lugar às penas,
                      Crescem perdendo a lanugem
                      No passar de horas amenas.






                        Com todo o corpo coberto
                      Esperam o alimento,
                      Sentem a vida mais perto,
                      Vão ganhando novo alento.







                        Torna-se o ninho pequeno,
                      Já não podem esperar,
                      Com um tempo tão ameno
                      Chega a hora de voar.







                                                

                            Sulcam todo o firmamento
                          A voar com emoção,
                          Ouve-se a todo o momento
                          O seu canto no verão.







                        Os seus musicais trinados
                      Alegram bosques e montes,
                      Refrescam veigas e prados
                      Tal como a água das fontes.




Escrito e realizado por Juvenal Nunes




sábado, 1 de julho de 2023

 Em jeito de balanço na

2ª HOMENAGEM AOS SANTOS POPULARES




        Festejaram-se os santos mais populares, cumpriu-se a tradição, apelou-se à criatividade e imaginação de todos quantos quiseram dar o seu contributo.
        Agradeço a todos os participantes todo o empenho e boa vontade demonstrados para fazerem da iniciativa uma homenagem enriquecedora.
        Os que quiserem poderão adicionar, no seu blog, a marca evocativa da homenagem.
        Muito obrigado a todos e bem hajam.

        Juvenal Nunes




segunda-feira, 19 de junho de 2023

 2ª  HOMENAGEM AOS SANTOS POPULARES








Uma Quadra Apenas

Todo o par enamorado,
Nas voltas do bailarico,
Deixa o ar perfumado
A cheirar a manjerico.

Juvenal Nunes





segunda-feira, 12 de junho de 2023

 2ª HOMENAGEM AOS SANTOS POPULARES




        Prepara-se, de novo, a celebração das festas aos santos populares.
        O Palavras Aladas convida todos os visitantes, leitores e autores a participarem na sua 
homenagem, escrevendo uma quadra.


        Quem quiser participar deverá:

    -- postar o texto no seu blog, antecedido do distintivo pictográfico apresentado.

     Saudações poéticas.



      Juvenal Nunes


Participantes:

1º - Rosélia Bezerra: Salvé Santo António !


3º - Verena: Uma Homenagem

4º - Luís Palma Gomes: Santo António


6º - Majo Dutra: Festas aos Santos Populares

7º - Juvenal Nunes: Uma Quadra Apenas

8º - Mário Margaride: Os Santos Que o Povo Gosta

9º - Olinda Melo: Um S. João Diferente

segunda-feira, 5 de junho de 2023

 A NOVA ARCÁDIA

FRANCISCO MANUEL DO NASCIMENTO





Soneto

Já vem a primavera, desfraldando
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;

Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.

Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.

Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!

Francisco Manuel do Nascimento





        Francisco Manuel do Nascimento viu a luz do dia em Lisboa, em 23 de dezembro de 1734
e faleceu em Paris, em 25 de fevereiro de 1819.
        Usou o pseudónimo literário de Filinto Elísio. que lhe foi atribuído pela Marquesa de Alorna,
a quem dava explicações de Latim.
        Embora fosse sacerdote foi denunciado à Inquisição pelas suas ideias liberais, pelo que teve
de se exilar em Paris. Trabalhou como tradutor, atividade de que se destaca As Fábulas de
La Fontaine e poeta consagrado.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

POETAS DE PARABÉNS

JÚLIO DANTAS 




A LUPA

Quatro meses depois dessa hora dolorida
voltei, já resignado e quase sem rancor,
ao ninho onde viveu aquele imenso amor
que foi o grande amor de toda a minha vida.

Compreendi, então - quanta imagem querida!-
que pode haver encanto e doçura na dor:
um perfume - era o teu - palpitava em redor;
dormia num sofá uma luva esquecida.

Uma luva e um perfume: é o que resta de ti,
dos beijos que te dei, do inferno que sofri,
do teu mentido amor de juras desleais.

Que fui eu, afinal, na tua vida intensa?
O perfume que voa e em que ninguém mais pensa,
a luva que se deixa e não se calça mais…

Júlio Dantas





        Júlio Dantas, algarvio natural de Lagos, nasceu a 19 de maio de 1876 e faleceu em Lísboa,
em 25 de maio de 1962. 
        Formou-se em Medicina e foi político e escritor. Nas letras espraiou o seu talento pela prosa, dramaturgia e poesia, área em que aqui é evocado.


sexta-feira, 19 de maio de 2023

 VOZ DA NATUREZA





Voz da Natureza

Primavera, tempo puro
Purifica o ambiente,
Tempo de maio maduro
No cenário mais virente.

Tempo de renovação,
Em que o cerrado arvoredo
Ajuda na criação
Do ninho feito em segredo.

Nos montes surgem clareiras
Onde florescem papoulas,
São como belas floreiras
Das mais rubras lantejoulas.

A natureza derrama,
Nas espécies vegetais,
Tintas de cor cuja chama
Pinta quadros naturais.

As aves com o seu canto
Desenvolvem harmonias,
Desdobrando o seu manto
Das mais belas melodias.

Por todo o espaço perpassa
O odor mais perfumado
Com que a brisa nos enlaça
Nesse aroma sublimado.

Mundo de cor e perfume
Da mais bela singeleza
Só no verno se faz gala,
Nas aves há o costume
Do canto na natureza,
Da sua voz que nos fala.

Juvenal Nunes





sexta-feira, 12 de maio de 2023

 POEMAS POR TEMAS

AFEIÇÃO




                                                                         Tema: Afeição

Amiga


Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca!...

        Florbela Espanca







 
        Florbela Espanca é uma poeta portuguesa consagrada pela superior
qualidade dos seus sonetos.
        O seu talento espraiou-se também, na prosa, como contista.
        Viveu uma vida infeliz e teve uma morte trágica.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

 A NOVA ARCÁDIA

NICOLAU TOLENTINO



Sátira aos Penteados Altos

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.


A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
- «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»

- «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...

Nicolau Tolentino





        De seu nome completo Nicolau Tolentino de Almeida, nasceu em Lisboa, em 10 de setembro de
1740 e faleceu, na mesma cidade, em 23 de junho de 1811.

        Foi uma figura de relevo da Nova Arcádia e, enquanto poeta, os seus textos imbuíram--se de uma vertente fortemente satírica, de cariz faceto, como se faz prova pelo soneto apresentado.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

 POETAS DE PARABÉNS

FERNANDO NAMORA







Profecia

Nem me
disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade
Se filho amado ou rejeitado.
mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue....
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto
sempre,
que não posso recuar.

Fernando Namora







        Fernando Namora nasceu em Condeixa- a- Nova, em 15 de abril de 1919 e faleceu em Lisboa, em 31 de janeiro de 1989. Médico de profissão fez 
também carreira nas letras tendo-se estreado como poeta. 
        A sua obra de maior vulto, contudo, foi no domínio da prosa, tornando-se num preclaro representante do neo-realismo.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

 POEMAS POR TEMAS

LIBERDADE




Tema: Liberdade



Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não Caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha… Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

Bocage









        De seu nome completo Manuel Maria Barbosa L´Hedois du Bocage nasceu em Setúbal, 
em 15 de setembro de 1765 e faleceu em Lisboa, em 21 de dezembro de 1805.
        Como poeta, distinguiu-se como o mais lídimo representante do arcadismo português.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

 VIVER ABRIL



Viver Abril

É abril, nasceu o sol
Que leva ao romper do dia,
Cala-se o rouxinol,
Canta alegre a cotovia,
E na luz desse arrebol
Tudo tem mais alegria.

Pelas veigas e nos prados
Do ridente mês de abril
Há odores perfumados
De flores, encantos mil.
Pássaros enamorados
Vão em voo subtil.

Toda a terra em harmonia
Duma forma natural,
Na mais bela melodia
Faz ouvir o se coral,
Abril ao mundo anuncia
O seu pulsar triunfal.

Aves de todas as cores
Em trilhos onde esvoaça
Todo o perfume das flores,
Dão a certeza a quem passa ,
Entre cores e odores,
Que todo o mundo se abraça
No voo que nos enlaça
Duma ave que esvoaça.

Juvenal Nunes





segunda-feira, 3 de abril de 2023

 A NOVA ARCÁDIA

JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO





A Cidade Bela

Quanto é bela Ulisseia! E quanto é grata
Dos sete montes seus ao longe a vista!
Das altas torres, pórticos soberbos
Quanto é grande, magnífico o prospecto!
Humilde e bonançoso o flavo Tejo,
Sobre areias auríferas correndo,
As praias lhe enriquece, as plantas beija.
Quão denso bosque de cavalos pinhos
Sobre a espádua sustenta! Do Oriente
Rubins acesos, fugidas safiras,
E da opulenta América os tesouros,
Cortando os mares líquidos, trouxeram.
Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta
De mais sereno azul. O Sol brilhante,
Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.
E quase se suspende, e, meigo, envia
Sobre ela o raio extremo, quando acaba
A lúcida carreira, a frente de ouro
No seio esconde das cerúleas ondas.

José Agostinho de Macedo





        José Agostinho de Macedo nasceu em Beja a 11 de setembro de 1761 e faleceu
em 2 de outubro de 1831. 
        Enquanto escritor notabilizou-se como poeta. Foi um escritor profícuo  que nos legou uma bibliografia imensa.
        Surpreendeu como acérrimo crítico de Camões, a cuja obra apontou defeitos.
        Publicou o poema épico O Oriente, que considerou menos defeituoso do que Os Lusíadas.

segunda-feira, 27 de março de 2023

 POETAS DE PARABÉNS 

CAMILO CASTELO BRANCO







ANEL

Dá-me um anel; mas que seja
Como o anel em que cingida
Tem gemido toda a minha vida.
Dá-me um anel; mas de ferro,
Negro, bem negro, da cor
Desta minha acerba dor,
Deste meu negro desterro!

Dá-me um anel; mas de ferro...
Sempre comigo hei-de tê-lo;
Há-de ser o negro elo,
Que me prenda à sepultura.
Quero-o negro...seja o estigma,
Que decifre o escuro enigma,
Duma grande desventura.

Dá-me um anel; mas de ferro,
Que resista mais que os ossos
Dum cadáver aos destroços
Do roaz verme do pó.
Entre as cinzas alvacentas,
Como espólio das tormentas
Apareça o ferro só.

E o teu nome impresso nele,
Falará dum grande amor,
Nutrido em ânsias de dor,
Pelo fel da sociedade...
Que teu nome nele escrito,
Nesse padrão infinito,
Vá comigo à Eternidade.

Camilo Castelo Branco








        Camilo Castelo Branco é natural de Lisboa, onde viu a luz do dia aos 16 de março
de 1825, tendo vindo a falecer em S. Miguel de Seide, em 1 de junho de 1890.
        Escritor genial, tornou-se, por dificuldades económicas, no primeiro escritor
profissional português.
        Do seu trabalho resultou uma obra incomensurável, na prosa principalmente, mas
também se destacou na poesia.

sexta-feira, 17 de março de 2023

 VIVER A ESPERANÇA





Viver a Esperança

Eis que volta a primavera,
Tempo de renovação,
Nesse tempo quem me dera
Viver com nova emoção.

Há no perfume das flores,
Quadros de enorme beleza,
Telas de várias cores
Que nos dá a natureza.

As aves de arribação
De presença dão sinais,
Deixam no ar a canção
Que espalham sobre os pinhais.

No aconchego dos ninhos,
Entre alegre melodia,
Pássaros trocam carinhos
Numa perfeita harmonia.

Os sinais da natureza
Duma vida renovada
Aos homens dão a certeza
Duma vida limitada.

A natureza comprova
Toda a nossa finitude,
O homem não se renova,
Não possui essa virtude.

No seu abraço de cor,
Que a natureza consente,
Quero manter a atitude
De viver sempre em amor
Que harmoniza o ambiente,
Nos conduz à plenitude.

        Juvenal Nunes





sexta-feira, 10 de março de 2023

 POEMAS POR TEMAS

ESPERANÇA


                                                                         
      Tema: Esperança


Esperança

Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco…
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado. 

Miguel Torga









        Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta em 12 de agosto de 1907 e faleceu 
em Coimbra, em 17 de janeiro de 1995.
        Oriundo de uma família humilde que trabalhava na agricultura, começou a trabalhar 
com 10 anos de idade. Após uma curta passagem pelo seminário emigrou  para 
o Brasil aos treze anos para trabalhar numa fazenda de café, pertencente a um tio.
Devido à sua enorme capacidade de aprendizagem o tio permitiu-lhe que ´prosseguisse os
 estudos, no Brasil. Cinco anos volvidos regressa a Portugal, conclui os estudos liceais 
e acaba por se licenciar em Medicina, na Universidade de Coimbra.
        Médico de profissão, dedicou-se intensamente à atividade literário tornando-se num dos
grandes escritores do séc.  XX português, tanto na prosa como na poesia.
        Largamente premiado pela sua obra literário recebeu também o Prémio Camões,
o mais importante na língua portuguesa.

sexta-feira, 3 de março de 2023

 A NOVA ARCÁDIA

CURVO SEMEDO




Soneto

Lília enquanto não foge a fresca tarde
Desce às margens frondosas deste pego,
Vem ver quem de saudades louco, e cego
Pela doçura de teus olhos arde.


Atende aos rogos dum Amor cobarde,
Que te chama do rio em que navego:
Vem, ou pôr termo ao pranto a que me entrego,
Ou do teu desamor fazer alarde.

 

Assim clamava Alzeu, que a Lília adora,
Eis como entanto, duma algosa gruta
Ouve dizer com voz clara, e sonora:

 

Não chames, Pescador, quem não te escuta:
Lília nos braços de Belmiro agora,
Quanto há doce em Amor, tanto disfruta.


Curvo Semedo









        De seu nome completo Belchior Manuel Curvo Semedo Torres de Sequeira, nasceu em
Montemor-o-Novo em 15 de março de 1766, tendo vindo a falecer em Lisboa em 28 de
dezembro de 1838.
        Representa um dos mais importantes elementos do movimento literário
Nova Arcádia, no qual usou o pseudónimo de Belmiro Transtagano.
        A sua obra está impressa nas Composições Poéticas, tendo traduzido, em verso, As Melhores
Fábulas de La Fontaine.