sábado, 27 de abril de 2024

 O ULTRARROMANTISMO

JOÃO DE LEMOS



A Lua de Londres

É noite; o astro saudoso
Rompe a custo um plúmbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, húmido véu:
Traz perdida a cor de prata,
Nas águas não se retrata,
Não beija no campo a flor,
Não traz cortejo de estrelas,
Não fala d'amor às belas,
Não fala aos homens d'amor.

Meiga lua! os teus segredos
Onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
Das praias d'além do mar?
Foi na terra tua amada,
Nessa terra tão banhada
Por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
Na pátria dos meus amores,
Pátria do meu coração?

Oh! que foi!... deixaste o brilho
Nos montes de Portugal,
Lá onde nasce o tomilho,
Onde há fontes de cristal;
Lá onde viceja a rosa,
Onde a leve mariposa
Se espaneja à luz do sol;
Lá onde Deus concedera
Que em noites de Primavera
Se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó lua, tu deixas
Talvez há pouco o país,
Onde do bosque as madeixas
Já têm um flóreo matiz;
Amaste do ar a doçura,
Do azul céu a formosura,
Das águas o suspirar;
Como hás-de agora entre gelos
Dardejar teus raios belos,
Fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
Do Mondego os salgueirais,
Quem andou por Tejo acima,
Por cima dos seus cristais,
Quem foi ao meu pátrio Douro,
Sobre fina areia d'ouro,
Raios de prata esparzir,
Não pode amar outra terra
Nem sob o céu d'Inglaterra
Doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
Tens aqui; mas Deus, igual
Não quis dar-lhe essa lindeza
Do teu e meu Portugal;
Aqui, a indústria e as artes,
Além, de todas as partes,
A natureza sem véu;
Aqui, oiro e pedrarias,
Ruas mil, mil arcarias,
Além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
Estátuas, praças sem fim
Retalham, cobrem o solo,
Mas não me encantam a mim;
Na minha pátria, uma aldeia,
Por noites de lua cheia,
É tão bela e tão feliz!...
Amo as casinhas da serra,
Co'a lua da minha terra,
Nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
Padecemos igual dor,
Temos a mesma saudade,
Sentimos o mesmo amor:
Em Portugal, o teu rosto,
De riso e luz é composto,
Aqui, triste e sem clarão;
Eu lá, sinto-me contente,
Aqui, lembrança pungente
Faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
Voltemos aos puros céus,
Leva-me, ó lua, contigo
Preso num raio dos teus;
Voltemos ambos, voltemos,
Que nem eu, nem tu podemos
Aqui ser quais Deus nos fez;
Terás brilho, eu terei vida,
Eu já livre, e tu despida
Das nuvens do céu inglês. 

João de Lemos






        João de Lemos Seixas Castelo Branco, de seu nome completo, nasceu no Peso da Régua, 
em 6 de maio de 1819, vindo a falecer na Figueira da Foz em 16 de janeiro de 1890.
        Dramaturgo e jornalista evidenciou-se nas letras como poeta, tendo ficado conhecido por 
o trovador.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

 BEIRA-MAR




Beira-Mar

À beira-mar eu contemplo
Todo o vaivém das marés
Vendo nesse vasto templo,
Com que as ondas inconstantes
De líquidos balancés,
Com recuos e avanços
Inquietam mareantes
Em permanentes balanços.

A maré cheia da vida
Enche a alma de emoção,
A maré vaza contida
Deixa-a em erma solidão.

Batel sem poder vogar
Requer nova condição,
Maré para navegar
Com os ventos de feição.
Levado pela bolina,
É nessa força segura
Que confiante procura
O abrigo da marina.

Juvenal Nunes





quarta-feira, 10 de abril de 2024

 POETAS DE PARABÉNS

ROSA LOBATO DE FARIA






Beijo a Beijo

 

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

E tudo o que me dás eu te devolvo.

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

Rosa Lobato Faria






        Rosa Lobato de Faria nasceu em Lisboa a 20 de abril de 1932 e viria a falecer na mesma 
cidade em 2 de fevereiro de 2010
        Personalidade multifacetada tornou-se conhecida no domínio da escrita quer em poesia 
quer em prosa; foi dramaturga, guionista de novelas e letrista.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

 POEMAS POR TEMAS

A ÁRVORE




Tema: A Árvore


Poema das árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto, dar flores.

António Gedeão








        António Gedeão é o pseudónimo literário de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nascido
em Lisboa em 24 de novembro de 1906 e falecido na mesma cidade em 19 de fevereiro de 1007.
        Foi poeta e cientista. Exerceu como professor no ensino secundário.
        Portugal adotou a data do seu nascimento como Dia Nacional da Cultura Científica.

quarta-feira, 27 de março de 2024

 O ULTRARROMANTISMO

SOARES DE PASSOS





Desejo

Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.

Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.

Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?

A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.

E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.

A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.

Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.

Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.

Soares de Passos




        António Augusto Soares de Passos nasceu na cidade do Porto em 27 de novembro de 
1826 tendo falecido na mesma cidade em 8 de fevereiro de 1860. 
         Concluiu o curso de Direito na Universidade de Coimbra tendo exercido como jurista 
até se dedicar exclusivamente à Poesia.
        É considerado figura de proa do Ultrarromantismo português.

domingo, 17 de março de 2024

 DIA MUNDIAL DA POESIA

                                                                                                                      





         Dia Mundial da Poesia

Está perto a primavera
Com vasta policromia
Quem por ela sempre espera
Também acha a Poesia.

Brincam as flores no prado,
Sopram amenas aragens,
Cada par enamorado
Por amor troca mensagens.

Gorjeiam ternas as aves
Em alegre sinfonia;
Tudo quanto se revela,
Por simples modos suaves,
Ultrapassa a fantasia,
Tornando sempre mais bela
A candura dos poetas,
Que revive em poesia
Libertando-os de grilhetas
Na mais completa harmonia.

        Juvenal Nunes







        O Dia Mundial da Poesia foi consagrado pela Unesco no dia 21 de março.
        Esta data coincide, também, com o Dia Mundial da Árvore.
        Portugal, país do hemisfério norte, recebe a primavera, este ano, no dia 20 de março, 
não se dando, portanto, a coincidência das três efemérides.

        Esta minha participação responde à iniciativa lançada pela amiga Rosélia Bezerra.

sábado, 9 de março de 2024

 POETAS DE PARABÉNS

ALEXANDRE HERCULANO





RESIGNAÇÃO

No teu seio, reclinado
Dormirei, Senhor, um dia,
Quando for na terra fria
Meu repouso procurar;

Quando a lousa do sepulcro
Sobre mim tiver caído,
E este espírito afligido
Vir a tua luz brilhar!

No teu seio, de pesares
O existir não se entretece;
Lá eterno o amor florece;
Lá florece eterna paz:

Lá bramir junto ao poeta
Não irão paixões e dores,
Vãos desejos, vãos temores
Do desterro em que ele jaz.

Hora extrema, eu te saúdo!
Salve, ó trevas da jazida,
Donde espera erguer-se à vida
Meu espírito imortal!

Anjo bom, não me abandones
Neste trance dilatado;
Que contrito, resignado,
Me acharás na hora fatal.

E depois... Perdoa, ó anjo,
Ao amor do moribundo,
Que só deixa neste mundo
Pouco pó, muito gemer.

Oh... Depois... Diz à mesquinha
Um segredo de doçura:
Que na pátria o amor se apura,
Que o desterro viu nascer.

Que é o Céu a pátria nossa;
Que é o mundo exílio breve;
Que o morrer é cousa leve;
Que é princípio, não é fim:

Que duas almas que se amaram
Vão lá ter nova existência,
Confundidas numa essência,
A de um novo querubim.

Alexandre Herculano







 De seu nome completo Alexandre Herculano de Carvalho Araújo nasceu em Lisboa, 
em 28 de março de 1810 e faleceu no seu retiro de Santarém, em 13 de setembro de 1877.
        Notabilizou-se como historiador, dramaturgo, jornalista e poeta da era do Romantismo.
        Defendeu a causa liberal, pela qual lutou militarmente tendo participado no Cerco do Porto.
        Acabou por recusar as honrarias que lhe foram concedidas.

sábado, 2 de março de 2024

 POEMAS POR TEMAS

SILÊNCIO




           Tema: Silêncio



O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade







        De seu nome completo José Fontinhas, notabilizou-se nas letras como poeta usando o
 pseudónimo de Eugénio de Andrade.
        Natural da Póvoa da Atalaia, na província da Beira Baixa, escolheu a cidade do Porto 
para viver. Fui seu vizinho durante muitos anos.
        Óscar Lopes considerou-o o grande poeta do amor do séc. XX.
        Os seus poemas são de grande valor estético associado a uma imagética variada.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

 UMA ROSA



Uma Rosa

Quando te dei uma rosa,
Rubra da mais bela cor,
De perfume abundosa
Foi como preito de amor.

Que beleza de esplendor
Na sua cor encarnada
Ofertada em teu louvor
Bem digna de ser usada.

Na sua cor há o lume
Que simboliza a paixão,
Dela se evola o perfume
Que incensa o coração.

O seu perfume se iguala,
Logo ao ser do pé cortada,
Ao perfume que se exala
Da beleza namorada.

A tua pele de cetim,
Tal pétala acetinada,
Faz inveja no jardim
À rosa mais encarnada.

Apaziguar Cupido,
Com a rosa dum jardim,
Torna o amor mais sentido
Pelo odor que é afim
Entre a rosa perfumada
E a mulher adorada.

Juvenal Nunes






sábado, 17 de fevereiro de 2024

 NA CLAREIRA DO BOSQUE

JOÃO BRAGANÇA SANTOS



        Volto a publicitar o llivro Na Clareira do Bosque de João Bragança Santos.
        Como forma de suscitar o interesse de eventuais leitores deixo a ligação para a pré-visualização do livro referido.

        Na Clareira do Bosque

        Um abraço a todos.

        Juvenal Nunes


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

 O ULTRARROMANTISMO


        Esta corrente literária sucede ao Romantismo e manifesta-se entre 1840 e 1860.
        Um dos seus cultores é o poeta algarvio João de Deus.

JOÃO DE DEUS



Amor

Não vês como eu sigo
Teus passos, não vês?
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!

Ao pé de uma fonte
No fundo de um vale,
No alto de um monte
Do vasto horizonte,
Sem ti estou mal!

Sem ti, olho e canso
De olhar, e que vi?
Os olhos que lanço,
Acharem descanso,
Só acham em ti!

Os ventos que empolam
A face do mar,
E as ondas que rolam
Na praia, consolam
Tamanho pesar?

As formas estranhas
De nuvens que vão
Roçando as montanhas
Em ondas tamanhas
Distraem-me? Não!

A pomba que abraça
No ar o seu par,
E a nuvem que passa,
Não tem essa graça
Que tens a andar!

Parece o pezinho,
De lindo que é,
Ligeiro e levinho
O de um passarinho
Voando de pé!

O rosto, há em torno
Da pálida oval,
Daquele contorno
Tão puro, o adorno
Da auréola imortal!

Não sei que luz vaga,
Mas íntima luz,
Que nunca se apaga,
Me inunda, me alaga,
Se os olhos lhe pus!

Eu amo-te, e sigo
Teus passos, bem vês!
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!

João de Deus







        João de Deus nasceu em São Bartoçomeu de Missines em 8 de março de 1830, tendo vindo a falecer aos 11 de janeiro de 1896, em Lisboa. 
        Foi poeta e importante pedaagogo. Nesta qualidade deixou-nos um método de ensino 
da leitura contido na Cartilha Maternal. O seu nome encontra-se associado a diversos 
jardins escolas assentes no seu método de leitura.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

 

Na Clareira do Bosque

João Bragança Santos



Informo todos os amigos visitantes, leitores, comentadores e autores do Brasil, caso estejam interessados na aquisição deste livro, do qual se apresenta a capa, que devem aceder-lhe através do seguinte link:

Na Clareira do Bosque - Livraria Ipê das Letras

Para os leitores interessados de Portugal:

Na Clareira do Bosque - Fnac

Na Clareira do Bosque - Bertrand

Na Clareira do Bosque - Wook

O livro não se encontra presente, fisicamente, nas livrarias mencionadas

Trata-se de um fabulário, cujo alcance didático-pedagógico pode ser útil para todo um universo infanto-juvenil.

Grato pela atenção dispensada a todos envolvo num abraço de paz e amizade.

Juvenal Nunes

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

POETAS DE PARABÉNS

FERNANDO ASSIS PACHECO 






Seria o Amor Português

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

Fernando Assis Pacheco








        Fernando Assis Pacheco nasceu em Coimbra, em 1 de fevereiro de 1937, tendo vindo a 
falecer em Lisboa, em 30 de novembro de 1995.
        Ficou conhecido como jornalista, tradutor, crítico e poeta.
        Atingiu enorme popularidade graças à sua participação no concurso televisivo A Visita da Cornélia.
        Casou em Pardilhó, localidade onde passava as suas férias e escreveu grande parte da sua obra.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

 POEMAS POR TEMAS

MUNDO



Tema: Mundo


Ao Vento

O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minha alma trágica e doente
Não sabe se há-de rir se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amor,
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim!... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
E a gente andar a rir pela vida fora!!...

Florbela Espanca







        Florbela Espanca é uma poeta portuguesa consagrada pela superior
qualidade dos seus sonetos.
        O seu talento espraiou-se também, na prosa, como contista.

domingo, 21 de janeiro de 2024

 LUTAR É VENCER



LUTAR É VENCER

Na vida não paramos de lutar,
Fugindo às penas, injustos castigos,
Importa prosseguir bem devagar,
Evitar correr por grandes perigos.

Evitar percalços, não claudicar,
Tomar por bem os melhores amigos,
Que nos levem a saber evitar
Os falsos cordeiros, os inimigos.

Aproveitar o tempo prestimoso
Sem ilusórios, falsos recamos,
Distinguir bem do certo, o duvidoso,

Aproveitar as horas principais
Para que no ócio nos não percamos,
Alcançando objetivos bem reais.

               Juvenal Nunes



domingo, 14 de janeiro de 2024

 O ROMANTISMO

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO





Os Treze Anos

Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já bailo ao domingo
com as mais no terreiro.

Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.

Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.

E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co'as patas
Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.

Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.

O meu gibão largo,
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,

dizendo-lhe: «Toma
gibão, domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.

A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co'as outras
e eu danço em terreiro».

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.

O mineiro é velho,
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.

Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.

Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro.

Que em ele assomando
co'o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.

Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos!
Ai, céu verdadeiro!
Ai, páscoa florida,
que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.

António Feliciano de Castilho





        António Feliciano de Castilho nasceu em Lisboa, em 28 de janeiro de 1800 e faleceu 
na mesma cidade em 18 de junho de 1875.
        Com 6 anos de idade a doença do sarampo fez-lhe perder a visão, deixando-o cego.
Apesar das dificuldades daí resultantes conseguiu exercer grande influência na intelectualidade 
do seu tempo. Criou o método Castilho de leitura e foi um poeta relevante do Romantismo. 
Também se dedicou à prosa escrevendo os Quadros Históricos de Portugal.
        Foi sempre muito ativo em diversas facetas da sua vida.

domingo, 7 de janeiro de 2024

 POEMAS POR TEMAS

ESPERANÇA



Tema: Esperança


Esperança

E depois talvez venha
O anjo da visita e do poema,
E traga o lume e a lenha
Do incêndio pedido.
Talvez venha,
De ritmos vestido.

Talvez… E, como outrora,
Ponha sobre a cabeça
Do poeta de agora
Os versos que ele mereça.

Em forma de grinalda,
Inocente e florida,
Talvez o faça ungido
Dum grito a amais na vida
Inútil e dorido…

 Miguel Torga





         Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta em 12 de agosto de 1907 e faleceu 
em Coimbra, em 17 de janeiro de 1995.
        Oriundo de uma família humilde que trabalhava na agricultura, começou a trabalhar 
com 10 anos de idade. Após uma curta passagem pelo seminário emigrou  para 
o Brasil aos treze anos para trabalhar numa fazenda de café, pertencente a um tio.
Devido à sua enorme capacidade de aprendizagem o tio permitiu-lhe que ´prosseguisse os
 estudos, no Brasil. Cinco anos volvidos regressa a Portugal, conclui os estudos liceais 
e acaba por se licenciar em Medicina, na Universidade de Coimbra.
        Médico de profissão, dedicou-se intensamente à atividade literário tornando-se num dos
grandes escritores do séc.  XX português, tanto na prosa como na poesia.
        Largamente premiado pela sua obra literário recebeu também o Prémio Camões,
o mais importante na língua portuguesa.

domingo, 31 de dezembro de 2023

 POETAS DE PARABÉNS

JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA









A Noite Abre Meus Olhos

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só

José Tolentino de Mendonça

 




        José Tolentino de Mendonça é natural do Machico, ilha da Madeira, onde nasceu em 15 de dezembro de 1965.
        Foi nomeado Cardeal pelo Papa Francisco. Para além de poeta é também teólogo.
        A sua vasta obra poética coloca-o próximo do mundo cultural, que lhe reconhece as qualidades, tendo sido, inúmeras vezes, galardoado.

domingo, 24 de dezembro de 2023

 3º ENCONTRO TEMÁTICO DE NATAL

UM POEMA DE NATAL





        Termina hoje a proposta desta iniciativa.
        Quero agradecer a todos os visitantes, leitores, comentadores e escritores a honra que me deram em colocar o vosso talento ao serviço desta iniciativa.
        A dinâmica desenvolvida enriqueceu a proposta apresentada e colocou o espírito do Natal no cerne das preocupações de todos os participantes.
        Um grande bem haja e muito obrigado a todos.

        Bom Natal

        Juvenal Nunes

Obs: Os interessados poderão usar o distintivo alusivo à sua participação.




sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

 XIV INTERAÇÃO FRATERNA DE NATAL







Angelical

Jesus nasceu em Belém,
Anjo da paz e do bem
Para o podermos louvar;
Criou novas esperanças,
Abriu o mundo às crianças,
Sua estrela fez brilhar.

Num curral deu o exemplo
De humildade divinal,
Nele quis fazer o seu templo
Numa noite especial.

Propôs uma caminhada
Para a qual nos deu a luz,
Durante toda a jornada
É anjo que nos conduz.

Juvenal Nunes




quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

 3º ENCONTRO TEMÁTICO

POEMA DE NATAL





Gesto de Amor

Uma estrela sem igual,
Nas palhas da manjedoura,
Tem um brilho especial,
Que de luz a noite doura
Iluminando o Natal
De Jesus, o Deus- Menino.
Que dum humilde curral
Fez o seu berço divino.

No seu berço humilde e pobre
Não há riqueza nem glória,
Mas com esse gesto nobre
Desses tempos há memória
Dum rei vindo a este mundo,
Que a todos deixa o clamor 
Desse eco vivo e profundo
Duma vivência de amor.

Juvenal Nunes






quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

 3º ENCONTRO TEMÁTICO

POEMA DE NATAL




        Com o decorrer do mês de dezembro vai-se aproximando a festa do Natal.
        A exemplo dos anos anteriores gostaria de convidar todos os amigos visitantes, leitores, comentadores e escritores a participarem nesta iniciativa com trabalhos alusivos à efeméride.

        Os interessados deverão:

        -- postar o texto no seu blog, antecedido do distintivo pictográfico apresentado.

        Saudações natalícias,

        Juvenal Nunes




Participantes:

1ª - Chica - Natal e Presença

2ª - Verena - Anjos

3ª - Rosélia Bezerra - Foi, É, Será Sempre Natal

4ª - Teresa Palmira Hoffbauer - Natal com Luís-Guilherme

5ª - Juvenal Nunes - Gesto Nobre

6ª - Olinda Melo - Suaves Sortilégios

7ª - Mário Margaride - Natal... Não É Apenas em Dezembro

8ª - JP Alexander - Navidad