domingo, 12 de junho de 2022

 POESIA BARROCA





A Morte de F.

Esse jasmim que arminhos desacata,
Essa aurora que nácares aviva,
Essa fonte que aljôfares deriva,
Essa rosa que púrpuras desata;

Troca em cinza voraz lustrosa prata,
Brota em pranto cruel púrpura viva,
Profana em turvo pez prata nativa,
Muda em luto infeliz tersa escarlata.

Jasmim na alvura foi, na luz Aurora,
Fonte na graça, rosa no atributo,
Essa heroica deidade que em luz repousa.

Porém fora melhor que assim não fora,
Pois a ser cinza, pranto, barro e luto,
Nasceu jasmim, aurora, fonte, rosa.

Francisco de Vasconcelos

                                   





       

        Francisco de Vasconcelos é um poeta português nascido na Madeira em 1665, na cidade
do Funchal, tendo falecido em 1723, na mesma cidade.
        1697, foi nomeado ouvidor da Capitania do Funchal.
        É um dos mais importantes poetas barrocos portugueses, de cuja obra se desatacam os títulos
Feudo do Parnaso (1729) e Hecatombe Métrico (1729).


sexta-feira, 10 de junho de 2022

 HOMENAGEM AOS SANTOS POPULARES




        O mês de junho é o mês dos santos populares.
        Por tal motivo, quero convidar todos os amigos, leitores e autores que visitam o Palavras Aladas
para participarem nesta iniciativa.
        Basta uma quadra para que a colaboração fique concretizada. Tão simples quanto isso.

        Quem quiser participar deverá:

       -- postar o texto no seu blog, antecedido do distintivo pictográfico apresentado.

       Saudações poéticas.

                                                           

    Juvenal Nunes


                                                  Participantes:                                

  1ª - Chica: Brincando

  2ª - Toninho: Aos Santos Populares

     3ª  -  Rosélia Bezerra:  Mês Junino

     4ª  -  Maria Lúcia:  Homenagem aos Santos Populares


     6ª -  Mário Margaride: Quadra Popular

      7ª - Amélia: Os Santos Populares

      8ª - Maria: Barraca de Sardinhas

      9ª - Majo Dutra: S. João Alegre

      10ª - Juvenal Nunes: Quadras Soltas

       11ª - Janita: Em Jeito de Desgarrada 






domingo, 5 de junho de 2022

 POEMAS POR TEMAS



   Tema: Desejo

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist'rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca


 







        Florbela Espanca dispensa qualquer tipo de apresentação. Poetisa
sobejamente conhecida, exímia sonetista, todos os seus trabalhos se impõem
pela sua elevada qualidade, que não deixa ninguém indiferente.

domingo, 29 de maio de 2022

 POETAS DE PARABÉNS

ANA DANIEL





Quero

Quero o cinzeiro antigo
E a caixa de Pandora
E a cor de fumo do vestido que vesti
No dia em que fui contigo espreitar a hora…

Quero dar passos atrás, sorrindo de querer
Coisas sem sentido
Nos restos do tempo, nas sombras da hora…
Quero
Que os ramos sacudam na minha janela
Toadas de tudo, toadas de nada
Flor amarela da minha alvorada.

Quero pingos de amor
Migalhas confetti e chuvas de cor
Sem tempo contado…
Quero o despertar contigo a meu lado
Quero chuva, quero vento, quero sol
Trancada em fita de laço
Tão longe do mundo – só no teu abraço!

Ana Daniel







        Ana Daniel é o pseudónimo literário de Maria de Lourdes
Oliveira Canellas da Assunção Sousa.
        Nasceu em Lisboa, em 19 de maio de 1028 e faleceu em
Sintra, em 30 de novembro de 2011.
        Venceu alguns prémios pelos seus trabalhos juvenis e foi
galardoada com o Prémio do Concurso de Manuscritos de Poesia Nacional,
de 1969.
        O seu último trabalho impresso em livro foi Nos Olhos das Madrugadas.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

 FLAMA


Flama

Depois que o sol se põe
No breu da noite ilumina
Com todo o seu esplendor
A bela e doce Lucina.

Na minha alcova em penumbra
Brilha como a luz da lua
A nudez que me deslumbra
Do teu corpo que insinua
Em pontos de luz e sombra
A acendalha do desejo
Que toda minha alma assombra
E cujo calor almejo.

A bela e doce Lucina
Até se sentir corar
E como casta menina
O luar quer apagar

No amor há uma luz
Que não deixa de brilhar
De noite ou à média luz
Está sempre a cintilar.

Juvenal Nunes



quinta-feira, 12 de maio de 2022

 POESIA BARROCA





Que Amor Sigo?

Que amor sigo? Que busco? Que desejo?
Que enleio é este vão da fantasia?
Que tive? Que perdi? Quem me queria?
Quem me faz guerra? Contra quem pelejo?

Foi por encantamento o meu desejo,
e por sombra passou minha alegria;
mostrou-me Amor, dormindo, o que não via,
e eu ceguei do que vi, pois já não vejo.

Fez à sua medida o pensamento
aquela estranha e nova fermosura
e aquele parecer quase divino.

Ou imaginação, sombra ou figura,
é certo e verdadeiro meu tormento:
Eu morro do que vi, do que imagino.

Francisco Rodrigues Lobo







        Francisco Rodrigues Lobo nasceu em Leiria no ano de 1580 e faleceu
em Lisboa, em 4 de novembro de 1622.
        É considerado por muitos o iniciador do Barroco na Literatura Portuguesa,
com a obra Corte na Aldeia.


quinta-feira, 5 de maio de 2022

 POEMAS POR TEMAS






Tema: Fantasia


Fantasia

Há uma mulher em toda a minha vida,
Que não se chega bem a precisar.
Uma mulher que eu trago em mim perdida,
Sem a poder beijar.

Há uma mulher na minha vida inquieta.
Uma mulher? Há duas, muitas mais,
Que não são vagos sonhos de poeta,
Nem formas irreais.

Mulheres que existem, corpos, realidade,
Têm passado por mim, humanamente,
Deixando, quando partem, a saudade
Que deixa toda a gente.

Mas coisa singular, essa que eu não beijei,
É quem me ilude, é quem me prende e quer.
Com ela sonho e sofro... Só não sei
Quem é essa mulher.

Alfredo Brochado







        Alfredo Brochado nasceu em Amarante, em 1897 e faleceu em Lisboa, em 1949.
        Manifestou sempre um gosto incontornável pela criação poética, que cultivou de par com a sua atividade profissional.
        Era introvertido e emocionalmente frágil o que o conduziria ao suicídio.
        Foi contemporâneo de Pascoaes, que lhe reconheceu valor e prefaciou o livro Bosque Sagrado.