sábado, 6 de março de 2021

 CORRENTES d`ESCRITAS 2021



        Com o nome em epígrafe realizou-se, nos dias 26 e 27 de fevereiro passado, um festival
 literário na Póvoa de Varzim, pelo 22º ano consecutivo. Devido às condições impostas pela
 pandemia o evento decorreu online.
        O festival deste ano homenageou o escritor chileno Luís Sepúlveda, pelo legado da sua
 oba. O autor, que estivera presente no festival do ano transato, viria a falecer algum tempo 
depois vítima do Covid-19.
        Este ano, o Prémio Literário Casino da Póvoa, foi atribuído à poetisa portuguesa Maria
 Teresa Horta, pela obra Estranhezas.



Os Silêncios da Fala

São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor

Silêncios de sílex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor
De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio
Os gemidos
nas camas
As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

Maria Teresa Horta






        Maria Teresa Horta é natural de Lisboa, onde nasceu em 29 de maio de 1937.
É uma consagrada poetisa portuguesa, largamente homenageada e premiada.
Nos seus antepassados conta-se a também célebre poetisa Marquesa de Alorna (sécs.
17 e 18).
        Para além da sua obra literária, a sua vida destacou-se, também, como membro
ativo de um projeto feminista, enquanto chefe de redação da revista Mulheres.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

 POETAS DE PARABÉNS

RUY BELO





E tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo





        Ruy Belo é um consagrado poeta português, natural de Rio Maior,
onde nasceu, em 27 de fevereiro de 1933, tendo falecido, em Queluz,
em 8 de agosto de 1978.
        Esteve incompatibilizado quer com o regime de ditadura quer com o
regime democrático.
        Foi diretor literário da Editorial Aster e chefe de redação da revista
Rumo.
        Considerado um dos maiores poetas portugueses da segunda
metade do séc. XX, foi condecorado, a título póstumo, com o grau
de Grande-Oficial da Ordem de Sant´iago da Espada.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

 POEMAS POR TEMAS



ALEGRIA


Era prazer? Era.
Mas era mais que prazer. Era alegria.
A diferença? O prazer só existe no momento.
A alegria é aquilo que existe só pela lembrança.
O prazer é único, não se repete.
Aquele que foi, já foi. Outro será outro.
Mas a alegria se repete sempre.
Basta lembrar.

Rubem Alves

                                                                





      Rubem Alves é, juntamente com Paulo Freire, um dos mais afamados
pedagogos brasileiros.
      Enquanto escritor, também se destacou no domínio da poesia.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

 



Amanhecer

Tinha chegado a hora
Em que se despede a noite,
Em que vai a noite embora
Sem saber onde se acoite,
Ferida pela aurora,
Que pouco a pouco reluz
Irradiante de luz.

Emerge a madrugada
Sepultando a escuridão;
Vem tão leve e tão pura,
Tão fresca, tão orvalhada
Que o dia é uma aventura
Pronto a cumprir a missão,
Em que a estrela matutina,
Numa constante procura,
Com sua luz ilumina
Os caminhos de feição. 

            Juvenal Nunes



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

 POESIA PALACIANA



Cantiga de D. Francisco de Portugal

Se alguém deseja prazer
Viva em-no esperar,
Que tudo o mais há de achar
Maneira de o perder!
Diga-me : quem alcançou
Bem algum que desejasse,
Se nunca tanto folgou
Que d’isso se contentasse?
E pois se acaba o prazer
Que se espera, em se alcançar,
Quem esperar de o ter,
Não ouse de o tomar!

D. Francisco de Portugal







         Poeta palaciano, D. Francisco de Portugal desempenhou o cargo de
vedor da fazenda, na corte de D. Manuel I e de D. João III. Fez carreira militar
em África.
        Os seus textos foram compilados por Garcia de Resende, que os
publicou, em 1516, no Cancioneiro Geral.
        Na impossibilidade de publicar um retrato do autor mostra-se o seu
brasão de armas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

 POETAS DE PARABÉNS

AL BERTO





As mãos pressentem a leveza rubra do lume

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo
e o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Al Berto






    
     Natural de Coimbra, onde nasceu em 11 de janeiro de 1948, faleceu em Lisboa em
13 de junho de 1997.
     Refratário do serviço militar, foi viver para a Bélgica, onde tirou um curso de pintura.
     Apesar disso, decidiu dedicar-se à escrita. Regressou a Portugal, após o 25 de abril de 1974.
     Artista multifacetado, além de poeta foi pintor e animador cultual.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

 Publicação dedicada a Rosélia Bezerra

POEMAS POR TEMAS


Silêncio, nostalgia

Silêncio, nostalgia...
Hora morta, desfolhada,
sem dor, sem alegria,
pelo tempo abandonada. 

Luz de Outono, fria, fria...
Hora inútil e sombria
de abandono.
Não sei se é tédio, sono,
silêncio ou nostalgia. 

Interminável dia
de indizíveis cansaços,
de funda melancolia.
Sem rumo para os meus passos,
para que servem meus braços,
nesta hora fria, fria?

     Fernanda de Castro


Tema: A Nostalgia

     Rosélia Bezerra administrava vários blogs.
    No princípio deste ano, eclipsou-se do mundo da blogosfera.




    Fernanda de Castro é uma poetisa portuguesa, natural de Lisboa, onde também faleceu.
    Mulher de talento multifacetado, também se dedicou à escrita de romances e
teatro.
    Viu o seu trabalho ser-lhe reconhecido, ainda em vida, tendo sido feita Oficial da Antiga,
Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant`Iago da Espada, do Mérito Científico,
Literário e Artístico.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

                                                                                                                                                                       

                                                                                                                                                                                             Esperançar no Novo Ano



Esperançar

Esta vida é uma labuta,
Que a todos desespera,
Que com lavor se disputa,
Que se vive numa espera.

Mesmo que se não mereça,
Nos meandros desta vida,
Não se evita que aconteça
O azar duma partida.

Há na cor azul do céu                                                                                                                                  O matiz da confiança,
Para o que não descreu
Acreditar na mudança
Que acontece a cada ano.
Vivendo nessa lembrança
Sei que na esperança o verde
Não nos leva ao engano,
Pois quem a crença não perde
Vive sempre na esperança.

        Juvenal Nunes



domingo, 3 de janeiro de 2021

 OS REIS MAGOS


Os Reis Magos

Partiram do Oriente,
Olhos postos no espaço,
Seguindo um rasto de luz,
Tendo sempre bem presente
Viajando  a par e passo,
Na procura de Jesus.

Nessa noite escura e fria
Vão Gaspar e Baltasar
E o rei mago Belchior,
Uma estrela alumia
Servindo de luz e guia
Por um caminho melhor.

Montados nos seus camelos,
Trajando mantéus e sedas 
Artefatos os mais belos,
Por caminhos e veredas
Procuram sempre com fé 
A Jesus de Nazaré.

Chegaram na Epifania,
Ajoelharam no estábulo
Ao Menino que sorria,
Cada qual com o seu pábulo,
Nessa noite de magia
Fizeram conciliábulo.

Na agitação da chegada,
Inquieta-se o Menino
E faz uma leve birra.
Mas após a sua entrada
Belchior não perde o tino 
E dá-lhe um vaso de mirra.

Sob o céu anil imenso,
Duma estrela que reluz,
Aproxima-se Gaspar:
Leva um pote de incenso,
Que presenteia Jesus
Para o purificar.

A seguir a esse instante
Surge logo Baltasar
Com vénia perante o Rei:
Traz um cofre deslumbrante,
De forma retangular,
Repleto de ouro de lei.

Cumpriu-se a profecia,
Que da estrela o sinal 
De no caminho dar luz,
Foi sempre o melhor guia 
Que levaria ao curral
Onde nascera Jesus.

          Juvenal Nunes


sábado, 26 de dezembro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

ALEXANDRE O´NEILL



Gato


Que fazes por aqui, ó gato?

Que ambiguidade vens explorar?

Senhor de ti, avanças, cauto,

meio agastado e sempre a disfarçar

o que afinal não tens e eu te empresto,

ó gato, pesadelo lento e lesto,

fofo no pêlo, frio no olhar!

 

De que obscura força és a morada?

Qual crime de que foste testemunha?

Que deus te deu a repentina unha

que rubrica esta mão, aquela cara?

Gato, cúmplice de um medo

ainda sem palavras, sem enredos,

quem somos nós, teus donos ou teus servos?

 

Alexandre O` Neill





     Alexandre O`Neill nasceu em Lisboa, em 19 de dezembro de 1924 e faleceu, na
mesma cidade, em 21 de agosto de 1986. 
     Fez parte integrante do movimento surrealista português. Marcou posição contra a
política do Estado Novo, mas nunca pertenceu a nenhum partido político.
     Autor de vasta obra tem em Uma Coisa em Forma de Assim o expoente máximo
do seu estro.
 

domingo, 20 de dezembro de 2020

 XI INTERAÇÃO FRATERNA DE NATAL



Alegria na Simplicidade do Natal



Simplesmente Natal


No seu humilde natal,
Na frialdade da palha,
Jesus recusa o esplendor,
Nasce num pobre curral
E a humanidade agasalha
Num belo ato de amor.

Nessa hora de alegria,
Cheia de simplicidade,
Sua luz é melodia
Bem de toda a humanidade.

        Juvenal Nunes

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 POEMA DE NATAL



ESTRELA DE NATAL
 

Numa gruta, em Belém,

Viu a luz o Deus-Menino,

Nascido da Virgem Mãe

Para cumprir seu destino.

Logo aos vagidos primeiros

Maria muda os cueiros

Humanizando o divino.

 

Arrimado ao seu bordão,

Em atitude zelante,

S. José cumpre a missão

Sempre calmo e vigilante.

Olha a vaca paciente

E o burro que o ambiente

Aquecem com a respiração.

 

Nessa aurora de Natal,

Entoando melodias

Na ordenha matinal,

Pastores das cercanias

Dão das ovelhas o leite,

Que por bem é logo aceite

Guardado nas almofias.

 

Moleiros vindos do rio

Trazem sacos de farinha

Lidando num corrupio

Logo pela manhãzinha,

Para terem pronto o pão

Da primeira refeição,

 Lá no forno da cozinha.

 

Acorrem num alvoroço,

Acodem à Boa Nova,

A Jesus menino e moço.                             

Dos camelos, na corcova,

Chegam mais tarde os Reis Magos

Guiados pelos oragos,                                                       

Que na lapa fazem prova.

 

A estrela que foi guia

Para dar, de noite, a luz,

Ainda hoje irradia

Da pessoa de Jesus.

 

                           Juvenal Nunes



quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

 POESIA PALACIANA




AUTO DA VISITAÇÃO OU MONÓLOGO DO VAQUEIRO

Meu caminho não errou?
 Deus queira que seja aqui,
 que eu já pouco sei de mi,
 nem deslindo aonde estou.
 Nunca vi cabana tal
 em especial
 tão notável de memória:
 esta deve ser a glória
 principal
 do paraíso terreal!
 Seja que não seja, embora,
 quero dizer ao que venho,
 não diga que me detenho
 a nossa aldeia já agora.
 Por ela vim saber cá
 se certo é
 que pariu Vossa Nobreza?
 Crei' que sim, que Vossa Alteza
 tal está
 que de isto mesmo dá fé. 

               GIL VICENTE



     Neste excerto da peça elaborada para comemorar o nascimento do príncipe herdeiro,
 o futuro rei D. João III, Gil Vicente dirige-se à rainha D. Maria, esposa de D. Manuel I.
 A peça fora encomendada pela rainha viúva, D. Leonor, irmã de D. Manuel I e tem a sua
 representação na corte, na própria câmara de D. Maria, que acabara de dar à luz.
     Esta peça marca o nascimento oficial do teatro português, do qual Gil Vivente é 
considerado  criador e lídimo representante.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

 POEMAS POR TEMAS



Vaidade, Tudo Vaidade!

 

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!

Ouve: quando eu, um dia, for alguém,

Tuas amigas ter-te-ão amizade,

(Se isso é amizade) mais do que, hoje têm.

 

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,

Tudo vaidade! E, se pensares bem,

Verás, perdoa-me esta crueldade,

Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

 

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna

E eu vi-me só no mar com minha escuna,

E ninguém me valeu na tempestade!

 

Hoje, já voltam com seu ar composto,

Mas eu, vê lá! Eu volto-lhes o rosto…

E isto em mim não será uma vaidade?

 

António Nobre



Tema: A Vaidade


          António Nobre foi um poeta portuense, que representou as correntes simbolista, 
    ultarromântica e saudosista.
          Em vida, publicou apenas um livro intitulado Só. 
          Faleceu prematuramente, aos 32 anos, ceifado pela tuberculose.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



MAR

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são
puras.

        Sophia de Mello Breyner Andresen



     Sophia de Mello Breyner Andresen é uma poetisa natural do Porto, onde nasceu 
em 5 de novembro de 1919.
     Foi tradutora e o seu talento manifestou-se também na prosa, tendo escrito livros 
de contos infantis.
     Foi a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o Prémio Camões.
     Encontra-se sepultada no Panteão Nacional.


segunda-feira, 16 de novembro de 2020



Sinfonia


Pelo teu corpo caminho
Meus dedos silenciosos,
Guitarra a gemer baixinho,
Sons de acordes maviosos,
Em sonata de carinho.


Nas vibrações musicais,
Das almas em harmonia,
Há cantos de madrigais,
Que dão à noite estrelada
Sons de bela  sinfonia.


E o canto da madrugada,
Que nova luz anuncia,
A voz confunde em teu peito
Pois canta do mesmo jeito
Que a alegre cotovia.


Juvenal Nunes



terça-feira, 10 de novembro de 2020

 LUGAR AOS NOVOS

ANDREIA C. FARIA


Descarnação

Até aos trinta anos tens
a cara que Deus te deu. Depois
tens a cara que mereces. É uma promessa
de ironia, uma sentença sem recurso.

É-te assim dito:
estás entregue ao labor íntimo
do que comes, ao número de horas que dormes,
àquilo que fazes e sobretudo
àquilo em que pensas. Deus
(perdoa-lhe a fraqueza)
tolera-nos enquanto somos jovens,
ampara-nos, alisa-nos
a fronte após um desgosto, talvez
nos ame, mas deixa-nos
sozinhos quando a beleza
é terreno pouco firme

e assiste de longe
ao desafio temerário que lançou
a cada filho.

Sabes então que o rosto é uma flor
plantada no escuro, uma corola
tenra, redonda e impenetrável
que desabrocha e se abre
com as pétalas lisas e brilhantes, ou
confusas e despenteadas,
conforme a força
e a direção do vento.

Andreia C. Faria




     Andreia C. Faria é já um valor consagrado da atual poesia portuguesa. Em 2018
venceu o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores – SPA – com o livro de poesia
Tão Bela Como Qualquer Rapaz. Em Julho deste ano foi distinguida, unanimemente,
com o Prémio Literário Fundação Inês de Castro, pela publicação do seu livro Alegria
Para o Fim do Mundo.
     Foi precisamente o título deste livro que serviu de mote para a Feira do Livro do Porto 2020.
     É ainda autora das obras De Haver Relento (2008), Flúor (2013) e Um Pouco Acima do Lugar Onde Melhor se Escuta o Coração (2015).
     Os críticos renderam-se à sua obra e Valter Hugo Mãe diz que o seu trabalho “está entre os mais urgentes, magníficos, da poesia contemporânea”.

     

terça-feira, 3 de novembro de 2020

 POESIA PALACIANA



A Poesia Palaciana

 

A evolução da produção poética fez com que,  à poesia Trovadoresca, sucedesse a poesia Palaciana, que se integra no movimento do Humanismo, que vai durar até cerca de 1527.

Garcia de Resende foi um dos elementos mais preponderantes deste período e a ele se deve a compilação desta produção poética, no seu Cancioneiro Geral.

A generalidade dos autores portugueses deste período conviveram, intelectualmente, com poetas espanhóis e italianos, além de autores do classicismo romano, o que, muito naturalmente, os influenciou.

Numa viagem feita a Itália, Sá de Miranda introduziu pela primeira vez, em Portugal, o soneto, dando origem, dessa maneira, a uma nova estética poética. 

São vários os representantes portugueses deste movimento. Por agora, contudo, gostaria de deixar o belo poema de João Roiz de Castelo Branco Cantiga sua Partindo-se, na voz de Amália Rodrigues.





terça-feira, 27 de outubro de 2020

 POETAS DE PARABÉNS

ANTÓNIO RAMOS ROSA





Viste o cavalo varado a uma varanda?


Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.


António Ramos Rosa


     António Ramos Rosa nasceu em Faro, em 17 de outubro de 1924 e faleceu 
em Lisboa, em 23 de setembro de 2013.
     É considerado um dos maiores representantes da poesia contemporânea 
portuguesa.
     Publicou a revista Cadernos do Meio-Dia e foi um dos fundadores da revista 
de poesia Árvore. 
     Autor de uma extensa obra poética, recebeu inúmeros prémios literários
de que destaco o Prémio Pessoa, em 1988.
     A Universidade do Algarve atribuiu-lhe, em 2003, o grau de Doutor Honoris Causa.


sábado, 17 de outubro de 2020

 



Olhos Negros


Sei duns belos olhos pretos,

Com que nos meus te demoras,

A piscar sempre indiscretos,

Águas de expressão de amoras.


Nesses olhos há o brilho

Em que se reflete o sol,

Luz em que me maravilho,

Da alma, fundo crisol.


Nessa expressão sem queixume,

Com alegria eu vejo

Todo o inflamado lume

Com que se acende o desejo.


Sempre que à noite escurece,

Teu olhar é luz que guia

O sentir do amor que aquece,

Nessa luz que me alumia.


               Juvenal Nunes





sexta-feira, 9 de outubro de 2020

 POEMAS POR TEMAS


Saudades


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

                              Florbela Espanca


Tema: A Saudade

                Florbela Espanca é uma poeta portuguesa consagrada pela superior
          qualidade dos seus sonetos.
               O seu talento espraiou-se também, na prosa, como contista.

sábado, 3 de outubro de 2020

 POESIA PALACIANA




     A poesia palaciana representa a segunda fase da poesia portuguesa, na história da nossa
 literatura.
     A designação de palaciana deve-se ao facto de ser declamada pelos nobres, nos serões 
palacianos.
     O seu início encontra-se associado ao declínio da ação dos jograis e à nomeação de
 Fernão Lopes, em 1418, para chefe dos arquivos do Estado.
     A poesia palaciana refletia a visão do mundo dos nobres. A mulher não era tão idealizada
 como no trovadorismo e o amor é apresentado de uma forma mais sensual.
     Esta poesia também sofreu alterações no seu aspeto formal. A sua escrita obedecia a métrica,
 feita em redondilhas maiores e menores. Tinha mais ritmo e expressividade, muitas vezes
 a partir de um mote, que se desenvolvia em glosa.
     Um dos seus principais cultores foi João Roiz de Castelo Branco, que dedicou este poema a
 uma dama da corte. 


Cantiga sua Partindo-se

Senhora, partem tão tristes
 meus olhos por vós, meu bem,
 que nunca tão tristes vistes
 outros nenhuns por ninguém.
 
 Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
 tão cansados, tão chorosos,
 da morte mais desejosos
 cem mil vezes que da vida.
 Partem tão tristes os tristes,
 tão fora d’esperar bem,
 que nunca tão tristes vistes
 outros nenhuns por ninguém.

     João Roiz de Castelo Branco


     João Roiz de Castelo Branco foi fidalgo da Casa Real, militar no Norte de África e poeta.
     Integrou as cortes de D. Manuel I e D. João III.
     O poema aqui publicado faz parte integrante do disco Fado Português, cantado pela fadista Amália Rodrigues.