As palavras são a matéria-prima da arte poética.
O voo da imaginação transforma-as em palavras aladas.
terça-feira, 14 de abril de 2020
POETAS MEDIEVAIS
JUIÃO BOLSEIRO
Sem o meu amigo sinto-me sozinha
e não adormecem estes olhos meus.
Tanto quanto posso peço a luz a Deus
e Deus não permite que a luz seja minha.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.
Quando eu a seu lado folgava e dormia
depressa passavam as noites; agora
vai e vem a noite, a manhã demora;
demora-se a luz e não nasce o dia.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.
Diferente é a noite quando me aparece
meu lume e senhor e o dia me traz;
pois apenas chega logo a luz se faz.
Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.
Padres nossos já rezei mais de um cento
implorando Àquele que morreu na cruz
que cedo me mostre novamente a luz
em vez destas longas noites de Advento.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.
Juião Bolseiro foi um jogral medieval de nacionalidade galega.
Pensa-se que a sua atividade terá decorrido no terceiro quartel
do séc. XIII. Foi assíduo da corte de Afonso X, o Sábio.
Segundo um documento datado de 1240, pode afirmar-se que foi
membro da Sé de Santiago de Compostela.
terça-feira, 7 de abril de 2020
INSTRUMENTOS MUSICAIS
A SANFONA
A sanfona apareceu no séc. XI, encontrando-se os estudiosos divididos quanto ao local:
Península Ibérica ou Norte de África.
Este instrumento dispõe de teclas e corda, além de incluir uma manivela. Não é de fácil uti-
lização, pelo que o seu manuseio apresenta alguma complexidade.
Depois dos tempos iniciais passou a ser usado na música tradicional .
Conhecer o som da sanfona:
sábado, 28 de março de 2020
POETAS DE PARABÉNS
EUGÉNIO DE CASTRO
A Laís
À ciprina Laís, de quem sou tributário.
A Laís que possui compridas tranças pretas,
P'lo meu escravo mandei, no seu aniversário,
Um cacho moscatel num cabaz de violetas.
Os amantes, que dão às suas namoradas
Fulgurantes anéis de riqueza estupenda,
Luminosos rocais e redes consteladas,
Hão-de sorrir, bem sei da minha humilde of'renda.
Pensei em dar-lhe, é certo, um precioso colar
E um anel com mais luz do que o incêndio de Tróia,
Mas reconsiderei de pronto, ao atentar
Que ainda ninguém viu dar jóias a uma jóia...
Eugénio de Castro nasceu em Coimbra, em 4 de março de 1869, tendo falecido
em Lisboa, em 17 de agosto de 1944.
É um expoente da Escola Simbolista onde inovou com novas rimas raras,
aliterações e sinestesias, além de um vocabulário rico e musical.
Tocado pelo saudosismo acabou por enveredar pelo neoclassicismo.
BERNAL DE BONAVAL A Bonaval quer`eu, mia senhor,ir e des quand`eu ora de vós partir os meus olhos nom dormirám. Ir- m`-ei, pero m`é grave de fazer, e des quand`eu ora de vós tolher os meus olhos nom dormirám.
Todavia bem será de provar de m`ir; mais des quand`eu de vós quitar os meus olhos nom dormirám.
Natural da Galiza, Bernal associou ao seu nome o nome da terra de onde era oriundo, nas proximidades
de Santiago de Compostela. Notabilizou-se como segrel, tendo frequentado os círculos trovadorescos de Afonso X, no século XIII.
sexta-feira, 6 de março de 2020
Instrumentos Musicais
O Saltério
O saltério apareceu no Médio Oriente, cerca de 300 A. C. A partir da Grécia expande-se para a Europa, onde surge no séc. XII. Foi frequentemente uti- lizado na Alta Idade Média. É um instrumento de cordas preferencialmente dedilhado, raramente se recor- rendo às palhetas. As suas cordas eram, inicialmente, feitas de tripa, tendo passado, posteriormente, a ser de metal.
Os namorados
Caminham de braços dados,
Sob o dossel dos vergeis,
Sem conter sua emoção.
Os namorados,
Pelo amor encantados,
Em juras de amor fieis,
Passeiam de mão na mão.
Juvenal Nunes
domingo, 9 de fevereiro de 2020
INSTRUMENTOS MUSICAIS
A Viela
A viela é um instrumento musical medieval de cordas friccionadas.
Pode ter formas diversas e apresenta de três a cinco cordas.
Surgiu na Península Ibérica por volta do séc.X. Tem um som semelhante ao violino, cujo arco foi introduzido pelos árabes.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
POETAS MEDIEVAIS Afonso Lopes de Baião Deu ora el-rei seus dinheiros a Belpelho, que mostrasse em alardo cavaleiros e por ric´homem ficasse; e pareceo o Sarilho com sa sela de badana: qual ric´homem, tal vassalo, qual concelho, tal campana! Foi um rico- homem português. Viveu algum tempo em Leão e Castela, onde participou em ações bélicas. Na guerra civil portuguesa apoiou o partido de D. Afonso III, que lhe concedeu a tenência de Bragança. Fez parte do Conselho Régio do Bolonhês, em cuja corte exerceu a sua atividade.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Dulcilóquo
Há no teu peito colinas,
A rescender madrugadas,
No aroma das boninas
Das manhãs mais orvalhadas.
Envolve-me nos teus braços,
Para sentir a doçura
Com que aplacas meus cansaços,
Nesse gesto de ternura.
A despetalar saudades,
Em completa sintonia,
Congregamos as vontades
Na mais perfeita harmonia.
Quando o amor nos seduz
Que ninguém dele se tema,
Na vida o que nos conduz
É nele que encontra o lema.
Juvenal Nunes
quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
POETAS DE PARABÉNS
EUGÉNIO DE ANDRADE
As Palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade nasceu em 19 de janeiro de 1923.
Óscar Lopes considerou-o o grande poeta do amor do séc. XX.
Os seus poemas são de grande valor estético associado a uma imagética variada.
sábado, 11 de janeiro de 2020
INSTRUMENTOS MUSICAIS
A Harpa
A harpa é um dos instrumentos musicais mais antigos da história do Homem.
São conhecidas harpas desde o tempo dos faraós, mais de 3000 anos antes de Cristo.
Apresenta uma estrutura triangular e integra o grupo dos instrumentos musicais de cordas dedilhadas.
O fascínio da sua sonoridade acabou por sensibilizar os mais românticos.
A quadra de Natal encerra as festividades natalícias com a Epifania.
Trata-se de uma comemoração, consagrada pela Igreja Católica, que celebra a
chegada dos reis magos ao estábulo de Belém, no dia 6 de janeiro.
A Bíblia refere a adoração dos reis pelo testemunho de São Mateus, no
capítulo 2.9-12 do seu evangelho. São Mateus é, aliás, o único que se lhes
refere sem contudo lhes atribuir nome. Do que escreve se depreende que foi a
tradição popular que os considerou reis. Não há certezas a esse respeito
julgando-se mais acertado considera-los sábios, astrónomos ou astrólogos, mas
que, face às oferendas feitas, eram pessoas abastadas e de posses.
Ao seguirem a estrela diz o evangelista referido que foi pelo efeito de
uma revelação interior que descobriram a relação entre o astro e o Messias.
Deve-se também à tradição o saber-se que eram três, em função das
dádivas efetuadas, sendo os seus nomes referidos nos Evangelhos Apócrifos da
Infância de Jesus. Chegaram a Belém montados em camelos e depararam com o
Deus-Menino nascido em humilde manjedoura, rodeado pelos seus pais, na
companhia de um burro de sage postura e de uma paciente vaca meditativa. Em
função da sua aparição, assim expresso o meu canto poético:
Os magos do Oriente
Abrem ao Rei seu tesouro,
Cada qual com o seu presente
De mirra, incenso e ouro,
Pois um caminho de Luz
À manjedoura os conduz.
Adiantou-se Gaspar com a sua oferenda de incenso, cuja utilização nos
templos simbolizava a espiritualidade. Seguidamente Belchior ofereceu mirra,
dádiva de grande valor na época, porque era usada em embalsamentos e
representava a imortalidade. Finalmente Baltasar ofereceu ouro, presente
próprio da dignidade devida a um rei.
Diz-nos São Mateus que os magos haviam indagado, junto de Herodes, em
Jerusalém, pelo rei dos judeus, que acabara de nascer. Aturdido, Herodes
convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo que o esclareceram
acerca do assunto, baseados no escrito do profeta. Herodes, então, informou os
magos de que deviam continuar viagem até Belém. Apenas lhes solicitou que o
fizessem sabedor, assim que o encontrassem, para que também pudesse acorrer a
adorá-lo. Os magos, avisados em sonhos para não tornarem a Herodes, regressaram
às suas terras por outro caminho.
A festividade natalícia dos reis está na origem de algumas tradições
que as pessoas foram cumprindo ao longo dos tempos.
Há em Portugal o costume de se cantarem as Janeiras e os Reis, usança
que há décadas atrás também pude vivenciar. As diferentes designações não são
aleatórias e devem explicar- se.
As Janeiras começam a um de janeiro e vão até ao dia 6 (dia de Reis).
Saúdam a entrada do novo ano e os cantadores, designados janeireiros, recebem
dádivas em géneros.
Os Reis são cantados entre o dia 5 e o dia 20 de janeiro. Comunicam o
nascimento de Jesus, regalando-se os cantadores, designados reiseiros, com
produtos do fumeiro, frutos secos, bebidas e doces. Ambas as situações podiam
ser, também, contempladas com óbolos de natureza pecuniária.
Há zonas do país em que grupos organizados de pessoas vão cantando, de
porta em porta, fazendo-se acompanhar de instrumentos musicais populares. Para
além da alegria proporcionada por essa função confraternizam, entre si, com os
produtos obtidos.
O escritor Aquilino Ribeiro, nos seus escritos, refere algumas quadras
populares, cantadas em função desta popular tradição. Num dos seus livros, que
justifica como o «… despetalar outonal de saudades,…», aborda o assunto desta
tradição da seguinte forma: «Na alba do Ano Novo, ainda as árvores de caroço
pela folha e os carvalhos pelos cerros pareciam rocas, grandes rocas carregadas
de lã ruça, romperam os ranchos a pedir as janeiras.» -- …… -- «Estava um frio de rachar, dos beirais
pendiam candeias de caramelo, e os rapazes, de pata ao léu, batiam o dente e
sopravam às mãos encalidas.»
O retrato, revelado por estes excertos, transmite-nos o aticismo
próprio do autor, verdadeiro mestre de língua.
Nos tempos que correm os rapazes já não andam de pata ao léu, embora o
frio da época possa levar à reação de soprar às mãos entanguidas.
São outras as dificuldades que agora atravessamos mas a evocação da
aparição dos reis magos, com o seu manancial de riquezas, faz-nos sonhar,
perante o aumento do custo de vida, que sempre se agudiza no início de cada
ano.
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo para me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, em 8 de dezembro de 1894. Poetisa de qualidade rara, viveu no ansiado e permanente desassossego de se encontrar, conforme bem expressa, nas suas produções poéticas.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
POETAS MEDIEVAIS
Airas Peres Vuitorom
Joam Nicolás soube guarecer
de mort`um hom`assi per sa razom,
(que foi julgad`a Foro de Leon):
que nom devia de mort`a `storcer;
e socorreu-s`assi com esta lei:
"que nom deve justiça fazer rei
em home que |e| na mão |nom| colher".
E pois el`viu que devia prende
mort`aaquel hom`assi disse-lh`entom:
-"Ponho que fez aleiv|e| e traiçom
e cousa já per que deva morrer.
Dizede vós: se a terra leixar,
que me nom achem i a justiçar,
se poderám em mi justiça fazer?"
Não se sabe, com certeza, qual a real nacionalidade deste trovador:
se era português ou galego.
Desenvolveu parte da sua atividade, em território português,
durante a guerra civil que opôs D. Sancho II ao futuro rei D. Afonso III.