POETAS DE PARABÉNS
Humanidade
Jorge de Sena
As palavras são a matéria-prima da arte poética.
O voo da imaginação transforma-as em palavras aladas.
POETAS DE PARABÉNS
Humanidade
Jorge de Sena
VERÃO DE S. MARTINHO
Dos soutos lá das montanhas
É costume bem vetusto
Serem trazidas castanhas
Para a festa do magusto.
O S. Martinho apadrinha
Esta bela tradição
Que toda a gente acarinha
E vive com emoção.
O seu passado revela
Essa lenda que é tão bela:
Numa curva da estrada,
O cavaleiro Martinho
Viu com frio um mendigo;
Cortou a capa com a espada
E num gesto de carinho
Deu metade ao sem-abrigo.
Esse gesto solidário
Feito ao pobre solitário
Fez que o tempo da estação
Fosse de novo verão!
Juvenal Nunes
POEMAS POR TEMAS
Marco
Paschoal
CINTILAÇÕES
Juvenal Nunes
Verdes
são os Campos
Verdes
são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.
Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Luís de Camões
POESIA TRADUZIDA
AMALIA BAUTISTA
IDA E
VOLTA
Quando nos
encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.
Quando
voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.
Porém
continuamos indo.
Amalia Bautista
OUTONO E COR
Outono e Cor
O outono é bom pintor,
Tem uma alma de artista,POESIA PALACIANA
Ante Tamanhas
Mudanças
Bernardim Ribeiro
POEMAS POR TEMAS
H
Sei que dez anos
nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos
e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito
e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra
lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.
António Maria Lisboa
POETAS DE PARABÉNS
CAMILO PESSANHA
Camilo
Pessanha
VINDIMA
Sendo os cachos vindimados
São pisados nos lagares
Em gestos bem compassados;
Em breves trocas de olhares
Também a festa domina,
Mesmo os corpos fatigados
Dançam muito animados
Ao ritmo da concertina
Que o homem tem por estima
De manter a tradição,
De ser sempre animação
Todo o tempo de vindima.
Juvenal Nunes
POESIA PALACIANA
Comigo me desavim
Sá de Miranda
PRÉMIO NACIONAL DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA
Coisa Amar
Contar-te
longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor
ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te
longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como
desembarcar
nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre
Natural de Águeda, onde nasceu em 12 de maio de 1936, Manuel Alegre é um político e um poeta português.
Este prémio é mais um dos muitos que recebeu ao longo da sua atividade, enquanto poeta.
Opositor ao regime anterior ao atual, esteve exilado, tendo regressado a Portugal após o 25 de abril de 1974.
É considerado uma das vozes mais fortes da atual poesia portuguesa.
POETAS DE PARABÉNS
MIGUEL TORGA
Súplica
Agora que o silêncio é
um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga
XII Interação Fraterna
Rosélia Bezerra
POEMAS POR TEMAS
Vaidade
Velejar
Já sopra o vento mareiro,
Iça a âncora do cais,
Solta a vela marinheiro,
Deixa atrás os areais.
Uma onda enrolada,
Levada pelas marés,
Abraça a areia molhada
Ao meu amor beija os pés.
Insufla a vela ao vento,
Balança a barca no mar,
O vento a todo o momento
Faz a barca bolinar.
Lenço branco a acenar,
Longe, na praia deserta,
Barca a vogar no mar
Minhas saudades aperta.
Insufla a vela ao vento
Soprando a todo o momento
Faz vogar a caravela,
Invadido num tormento,
Mão em concha sobre a fronte
A temer qualquer procela
Deixo atrás o horizonte
Com o sol a arroxear
Em painel de maravilha,
Sulca as águas a quilha,
Tenho pressa de voltar
No sonho de te abraçar.
Juvenal Nunes
HOMENAGEM PÓSTUMA
A
PEDRO TAMEN (1934-2021)
E é a tua sombra, e é e se desfaz
E é a tua sombra, e é e se desfaz,POETAS DE PARABÉNS
GASTÃO DA CRUZ
POEMAS POR TEMAS
SOLIDÃO
Desesperança das desesperanças...
Última e triste luz de uma alma em treva...
— A vida é um sonho vão que a vida leva
Cheio de dores tristemente mansas.
— É mais belo o fulgor do céu que neva
Que os esplendores fortes das bonanças
Mais humano é o desejo que nos ceva
Que as gargalhadas claras das crianças.
Eu sigo o meu caminho incompreendido
Sem crença e sem amor, como um perdido
Na certeza cruel que nada importa.
Às vezes vem cantando um passarinho
Mas passa. E eu vou seguindo o meu caminho
Na tristeza sem fim de uma alma morta.
Vinicius de Moraes
POESIA PALACIANA
Meu amor,
tanto vos quero
Aires Teles
Aires Teles de Menezes, de seu nome completo, foi um escritor português,
que se encontra representado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.
Enquanto cortesão, serviu no espaço palatino do rei D. João II como mordo-
mo-mor da rainha D. Leonor, esposa do monarca.
Faleceu num convento franciscano, onde se havia recolhido, no dealbar
século XVI.